Desdobrando, ou dobrando de outro modo, ou mesmo dobrando mais uma vez, conviver é viver-com, viver em companhia, nem sempre juntos mas quase sempre conectados de algum modo. Estar esses dias foi experienciar um risco bom, desses e daqueles riscos que nos faz entrar em crise, e entrando em crise (desestabilizando) é que podemos expandir (e criar outras estabilidades). Só assim nos transformamos e aceitamos o desafio do transformando. Já vinha me preparando para esse convívio nos sentido de abrir o corpo para o que se desconhece, fazendo um trabalho de fundo (uma rotina) para, então, sambarroxear em Ipatinga. Sambarroxé? Sim, eu danço, e dancei. Fazia tempo que não rebolava o corpo nessa dança que eu inventei e que sempre estou a aprender com ela, nela, a partir dela. Foi nesse movimento que um desejo convergiu e Luciano o possibilitou, lançando a ideia de eu ir fazer uma aula de axé no Espaço da Cia Flux, no bairro Bethania, com o professor e dançarino Kleytinho, do Recrutas do Axé, pelo Projeto Fica Vivo!, revezando rebolados, passos e ritmos em quase 2 horas de aula. Alías, esse foi um dos grandes presentes desse espaço de convívio, reavivar inquietações artísticas como esse que tenho de me relacionar artisticamente com as ditas danças da mídia, possibilitando eu fazer outras perguntas, ou melhor, fazê-las de um modo simples e complexo, pois acredito que a simplicidade é o lugar/local onde os níveis de complexidade são os mais altos, que tem a ver com um tipo de fazer que é assertivo, vai lá, faz, é na mosca, no alvo, simples assim. E nesse presente-experiência, me deparo com esse projeto Fica Vivo! que é biopolítico e pode nos dizer muito sobre esperança, desistência, resignação, desvio, encontro, inoperância, precariedade, pois ser biopolítico tem a ver com um fazer-morrer enquanto um deixar-viver. Lembrando das caminhadas matinais na Avenida Macapá, conhecida por Macapeta, não à toa; o banho de cachoeira com Luciano e Micheline, nas águas onde já se banhou nossas insuportável Rainha do Baixinhos (não tão mais baixinhos), Xuxa. Somando a tudo isso, nessa síntese que aqui compartilho, foi lançar a versão impressa da publicação Dança com a Crítica, tão preciosa e suada, vinda do projeto Crítica com a Dança, deparando-me com o escrever dedicatória, assinar o nome, olhar no olho de quem foi lá conferir. Pois Ipatinga me fez lembrar pra não esquecer muita coisa que fica aqui nas entrelinhas, no antes e no depois de cada palavras, na própria ausência de certas palavras que se fazem presentes nessa ausência, no que ainda estar por vir mas já é de algum modo. Sigamos felizes e atentos para que momentos como estes não nos escape pela impossibilidade de perceber que precisarmos viver pra contar, e conviver para recontar. 

Joubert Arrais
artista-pesquisador, crítico de dança e jornalista cultural
professor do bacharelado e licenciatura em Dança – Fap/Unespar
doutorando em Comunicação e Semiótica (PUC-SP)