Era o ano de 1999 quando, ainda criança, minha mãe me levava ao Teatro Zélia Olguin para assistir a um espetáculo de dança. Essa é a primeira memória que tenho de adentrar um edifício teatral. Tratava-se de um espetáculo do Hibridus Dança. Não me lembro do nome do trabalho, mas algumas imagens ficaram registradas em mim.
Outra memória que se cruza com essa é a de um dia de apresentação da Academia de Dança do Ailton Amâncio, quando quem ficou responsável por guardar meus cinco reais do lanche foi o Godoi.
Posso mencionar também a ocasião em que participei de uma aula experimental de dança afro na Escola Municipal João Amaro Damasceno, quando ainda eram o GRUCON – Grupo de União e Consciência Negra.
Não sei bem quando nossa história começou, mas esses três episódios permaneceram como marcos dos meus primeiros contatos com a arte.
Minha mãe sempre foi a principal responsável por esse contato com as linguagens artísticas. Era dela também o livro Memórias Póstumas de Brás Cubas, obra que ficava acessível na estante de casa e que, um dia, por curiosidade, abri — foi assim que descobri Machado de Assis.
Hoje, 30 de janeiro de 2026, ao assistir à estreia de Ornitorrinco no Teatro do Centro Cultural Usiminas, todas essas memórias transbordaram, como se eu ainda fosse aquela criança de olhos arregalados, curiosa pela dança.
E, de fato, ainda sou essa criança. Ainda tenho os olhos arregalados e ainda me interesso pela dança. Mas, ao assistir a esse trabalho tão delicadamente dirigido por Thereza Rocha e Léo Coessens, não pude deixar de fazer também uma reflexão mais profunda sobre a memória — especialmente ao retornar ao conceito de Henri Bergson de que a “memória é tudo aquilo que passa pelo nosso corpo”.
Se pensarmos o corpo enquanto estrutura que hoje se tornou o Hibridus, chego à conclusão de que o Hibridus é…
Esse corpo que dança, mas que também é performance, é memória, é cidade e é encontro. Encontros como esses que tivemos ao longo de uma vida ou como os que foram realizados nas várias edições do Enartci.
Mesmo com esses encontros fazendo várias rotas nessa linha do tempo, o Hibridus foi e continua sendo…
O lugar de encontrar o outro.
Barbara Pavione
Atriz / Arte educadora / Produtora Cultural
@coletivoabertodeteatro




