Dramaturgia do corpo: ou quando a dança encontra modos de operar por outras vias

Por onde começar? Como traduzir, em palavras, sentidos provocados por um espetáculo que assisti? O presente texto não é uma crítica teatral porque não traz em si a pretensão de mostrar como a obra cênica analisada é, ou foi. Não é sobre gostar ou não gostar. Assim como não é sobre o que estava ausente ou fez falta. É uma reflexão daquilo que me fez sentir e pensar e que pode dar a ver a quem ainda não assistiu.

O trabalho artístico “Ornitorrinco” não cabe em uma única definição. É dança, teatro, poesia e arte visual que, misturados, contam a história do grupo Hibridus (de Ipatinga – Minas Gerais). A materialização dos fatos vividos na arte e na vida é colocada em cena e nos move como plateia.

Primeiro, vem a fruição de imagens projetadas que nos levam para as águas doces nas quais o ornitorrinco habita. Vale ressaltar que, em 1800, a espécie foi descrita como “Ornithorhynchus paradoxus”. O termo paradoxo cabe bem ao processo de composição em “dança contemporânea”. A dança foi definida por Paul Valery, na obra “Filosofia da dança”, como “poesia geral da ação”. No cenário atual de criações em dança contemporânea, fazer poesia com o corpo em movimento é algo louvável. Quem se atreve a experimentar, em cena, mover-se para levar os espectadores por caminhos outros que escapam a expectativas e operam por outras vias? Afinal, fazer arte em Tinga (Ipatinga) é, para o grupo Hibridus, “tão difícil quanto fazer uma vaca voar”.

Contrário ao senso comum que espera uma história linear, didaticamente narrada, em Ornitorrinco a dramaturgia revela a existência de procedimentos únicos compostos coletivamente em uma poética propositiva que permite que o fazer artístico realmente aconteça. A história do grupo Hibridus não é dada de antemão. Temos uma pista não-humana, um arranjo, uma estabilização provisória, uma ambientação que leva em conta os diferentes sujeitos agentes de ações de mudança. A dúvida está posta: é o ornitorrinco que passa a ser parceiro artisticamente ativo da dramaturgia, como metáfora do corpo híbrido, ou somos nós, na plateia, que experimentamos, na prática de fruição, o conceito de hibridez? Talvez, alguém diga que o ornitorrinco dança nas águas. Porém, ao fazer parte do espetáculo, é o não-humano que nos convida a abrir mão das certezas daquilo que é Dança.

Quando, em seguida à projeção, os dois humanos entram em cena, outro nó de uma rede ampla abre possibilidades de instauração de outras lógicas. Na coreografia, dois homens compartilham peso, tempo, espaço e fluência. Sendo seus corpos, movimentam-se por uma lógica performática que se contrapõe aos sentidos hegemônicos que insistem em querer dar permissão àqueles que podem dançar: jovens, másculos, magros, musculosos e longilíneos. Nesse momento do espetáculo, a diversidade de que somos feitos instaura multiplicidade e traz uma aspecto político que se alia ao estético.

Quando a coreografia termina, é na tela que vemos a projeção do paradoxo: um código de barras fixo (criação humana) e a palavra Ornitorrinco (criatura não-humana). Na tecitura acompanhada de signos, o território de criação depende, por um lado, de enquadramento (planejamento, financiamento, produção) e por outro, correlativamente, de transgressão (quebra de hierarquias entre o que é ordinário e pode ser extraordinário). Afinal, como cada obra carrega seu próprio código, com esse espetáculo não seria diferente. Então, ouvimos uma gravação, um arquivo sonoro que nos transporta para a não-presença. É história viva! Outra pessoa atua sobre nós e entra na dramaturgia como memória compartilhada e resistência (outras pistas que o espetáculo nos dá sobre fazer arte).

Assim, a água reaparece. Agora, como uma piscina imaginária. Na história contada, as personagens não estão sozinhas e nos fazem perceber que todos nós transitamos por diferentes papéis, compondo histórias, estando imersos nelas e sendo constituídos com elas.
Em um processo constante, lidamos também com a presença do trem. Materializado como objeto em movimento no proscênio, ou como projeção, ele ocupa o centro da história de Ipatinga e o percebemos também em posição de protagonista. Carregado de memórias encarnadas, o trem forja histórias e abarca deslocamentos.

Vamos, então, do trem para o espaço de trabalho do grupo Hibridus. A projeção problematiza certezas: uma sala e um sonho bastam? Com quantos e quais argumentos o grupo precisou lidar para sustentar seu fazer como Arte? Para que sonhos se tornem realidade (vontade de estar em cena X produzir o que estará em cena), as bordas do sensível precisam tangenciar a dura racionalidade do capitalismo. Talvez por isso, aparece também projetada a imagem de uma chaminé de indústria simbolizando a necessária alta capacidade de produção. É nesse cenário-território que o grupo Hibridus sonha com a composição engendrada não somente por determinados sujeitos – humanos. O espetáculo Ornitorrinco é desmembrado nos diversos elementos não-humanos que o constituem.

Em outro momento, entra em cena a ludicidade. Os dois bailarinos, de posse de uma pequena lousa, brincam com camadas afetivas do cotidiano. O que ele mais gosta? O que odeia? Cada pergunta gera respostas coincidentes ou divergentes. O outro é conhecimento e mistério. A relação é puro jogo, assim como a dança também pode ser.
E é aí que a formação pedagógica aparece: uma aula de Jazz. Entre o aprendido e o que foi ensinado, resta a memória. E ela surge como deslocamento no tempo e no espaço. Como rigorosidade e amorosidade. Ao final da cena, o que fica é a cumplicidade de um casal que cria juntos há muitos anos.

Contudo, para criar e colocar em cena um espetáculo, passos que não fizeram parte das coreografias foram dados. Escrita de projetos, preenchimento de planilhas, interposição de recursos, cumprimento de prazos, prestação de contas etc. Estas são expressões escritas em pequenas placas que causam, em quem é da área, a noção do trabalho exaustivo que é ir atrás da produção de um sonho. Ser artista não basta. É preciso saber as regras do jogo administrativo e tentar criar e manter estruturas que alimentam um sistema de financiamento.
Em contraposição às palavras e expressões de caráter administrativo, destaca- se uma outra cena. Camisetas com palavras de ordem, gírias e imagens são espalhadas pelo palco. Ao vestir cada uma delas, as camadas vão se sobrepondo e trazendo referências do rico universo LGBTQIA+.

É nesse universo que mergulhamos quando, na narrativa, um dos bailarinos conta, de costas para a plateia, uma passagem de sua infância, assistindo televisão. O que nos é revelado ganha cada vez mais significado: a dor e a delícia de ser o que é, como diz a canção. E é um deles que “monta” o outro, com saia e peruca. “Transformisados”, dublam e dançam a música “Voyage” que é celebração pura para os corações bombardeados pelas ideias fatais. Hino de quem quer ir mais longe do que a noite e o dia pelo extraordinário espaço do amor. E a plateia? Ri, bate palmas, canta e se emociona! Desse modo, nos tornamos responsáveis pelo que aprendemos a ver: uma dança que compõe mundos que também nos compõem.

Os modos de conexão que tecem as associações entre corpo e memória seguem quando o avô nos é apresentado por meio de uma história contada. Nessa cena, mudam-se os modos de estar presente, de olhar, de se movimentar e de dar a conhecer. O palco passa a ser o quintal, ou a varanda mineira, e nele nos deparamos com a fé, aquela que não pode falhar quando se trabalha com arte e se pretende permanecer atuando. A ancestralidade é materializada e mobilizada em Ornitorrinco e, no que tange à dimensão do sagrado pulsante, somos convidados a rever nossos preconceitos. E isso é lindo!

Os modos de costura seguem gerando espaço para ser pensados por meio da canção da turma do Balão Mágico: “É tão lindo”. Nesta cena, o título da música está sendo usado em diálogo com outros modos de interação com a plateia que canta junto. Assentados sobre as histórias e experiências do grupo, vemos marcado um lugar de vida: a amizade. Vozes e movimentos são levados em conta e registram a presença para um lugar conhecido: a memória. As sensações produzidas em/com/por Ornitorrinco, faz-nos acessar elementos para que possamos sentir a dramaturgia.

O diálogo com o passado continua e coexiste com o tempo presente. Na projeção, vemos uma coreografia que marcou a trajetória dos componentes do grupo Hibridus. A manutenção viva da história reverbera na plateia e nos faz sentir a dimensão de um trabalho que resiste e segue vivo. Pode parecer absurdo, mas há trabalhadores da cena que realmente nos animam a pensar na possibilidade de “fazer uma vaca voar”. Anunciam a importância de agir na incerteza para criar e permanecer lançando nossas criações no mundo.
O espetáculo caminha para o fim. É quando a boniteza de um beijo entra em cena e os corpos entrelaçados ressignificam a dança. A verdade dos gestos e dos movimentos atravessa e quebra a “parede” que separa a plateia. Uma outra poesia, um outro jogo e uma outra atmosfera tensionam os sentidos. O amor foi servido! Está posto na mesa!

Para a plateia, o que resta é ver o trem que retorna materializando todas as costuras feitas e apresentadas. Saímos diferentes! Mais corajosos e menos preconceituosos. Menos entediados e mais inspirados.

A linguagem cênica encarnada na dramaturgia do corpo nos atravessa e o espetáculo finaliza sem o término ordinário, sem ponto final, mas com as reticências necessárias para sugerir a continuidade de um grupo de dança potente. Uma dança que revolve o passado e o presente pode jogar luzes para o futuro da Arte ou do que acreditamos ser a potência da Arte.

Em síntese, o não-humano ornitorrinco se faz híbrido com a plateia e, depois do espetáculo, ganha uma subespécie: ornitoTINGA. Afinal, no jogo da poética e da estética, ao forjar seu arranjo espacial em Ipatinga, o grupo Hibridus lança, com delicadeza, ludicidade e bom humor, o que quero chamar de dramaturgismo situado.

Mônica de Ávila Todaro – Docente do Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas (PPGAC) e do Programa de Pós- Graduação em Educação (PPEDU) da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ).

Fotos: Nilmar Lage