GRUPO HIBRIDUS …a vida que inventaremos juntos


Fotos: Nilmar Lage

Aviso aos navegantes: o texto a seguir é totalmente parcial e passional porque não haveria outra forma de escrevê-lo. Primeiramente em razão do meu total desconhecimento da linguagem da dança. Mas, também porque as palavras que virão a seguir estarão inteiramente contaminadas com a minha paixão por um lugar chamado Ipatinga.

Assisti no último sábado, 31 de janeiro, no Teatro do Centro Cultural Usiminas, ao espetáculo Ornitorrinco do Grupo Hibridus Pontão de Cultura. Uma mistura de dança, videoarte, teatro, performance de rua e muita picardia. Não esperava outra coisa, porém devo revelar que fiquei um pouco surpreso com a direção artística de Thereza Rocha.

A dramaturga carioca residente no Ceará botou os meninos para tagarelar de um jeito que nunca tinha visto antes. Como ambos são dançarinos e não atores de formação, entendi que Rocha quis dar um tom documental num espetáculo que trazia a memória individual de Godoi e Luciano como mote para a maioria das cenas. Como documentarista de ofício, fiquei com ciúmes da ideia. Por que não tive esse insight antes? Poderia ter feito ótimos filmes. Deixa pra lá e vamos ao que interessa.

Toda a vez que o Hibridus entra no palco, algo em mim se modifica. Não é orgulho ingênuo, aquele sentimento atávico que nos acomete quando estamos diante de uma manifestação local de queridos amigos que nos representa. Nem se trata de provincianismo que nos dá a liga do pertencimento. Desde o dia em que a companhia me foi apresentada através do espetáculo Ossos Secos, tive um incômodo profundo que me fez admirá-la instantaneamente.

Aquelas imagens perturbadoras diante dos meus olhos tão treinados para reconhecer o óbvio era a mais aterradora leitura do território que percorro desde a infância. Sob um ritmo alucinado, os artistas não só bailavam com passos estranhos como também denunciavam em cada ato o nível absurdo de domesticação dos nossos corpos. Numa cidade cuja alma nasceu estrangulada por massacres e a exploração máxima da força de trabalho, o Grupo Hibridus ousou coreografar a opressão para torná-la visível, perceptível como algo não natural. Assim repudiavam a disciplina autoritária e capitalista que moldou os gestos, a fala e o pensamento da gente daqui.

Nunca tinha visto, em Ipatinga ou no Vale do Aço, tamanha ousadia e sagacidade emolduradas numa estética que dialogava com a dança contemporânea universal, mas que trazia a especificidade da crueza e da perversidade inseridas nos movimentos cotidianos do ipatinguense comum.

Repetiram em mim o mesmo impacto nas montagens Coisa É Tudo (2019) e ADEÓ (2022). Se eles jamais refletiram sobre isso, digo-lhes em primeira mão. O Grupo Hibridus apontou o caminho para aqueles que desejam criar com o barro local. Está explícito na atuação da companhia, desde a sua fundação, o engajamento com a causa negra, LGBT+ e toda a diversidade humana. No entanto, na minha visão, o que há de mais autêntico na voz artística desse grupo é o fato de que seus espetáculos submetem todas essas questões identitárias ao crivo de uma realidade bem específica. É o “ecossistema Ipatinga” que produz nesses corpos uma servidão própria, uma brutalidade própria que só existe aqui. Com as argilas telúricas do silêncio e do medo, o Hibribus esculpe o Adão e a Eva ipatinguenses para apresentá-los ao resto do mundo.

Ornitorrinco traz a mesma perspectiva da coreografia da opressão à luz de duas vidas que se atreveram a romper barreiras. Assumiram a arte, inventaram o amor e resistiram aos tempos obscuros da intolerância, da homofobia, do racismo e da apatia geral. Porém, nesta terra onde o nefasto e o sublime são vizinhos que dividem o mesmo quintal, os ornitorrincos ipatinguenses não são apenas os corpos indesejáveis. Os alvos do controle movimentam-se por todas as direções do nosso território.

Todo mundo em Ipatinga é meio “ornitorrinco às avessas” à medida que a mutilação histórica e cotidiana desenhou em nós um traçado evolutivo que nos permite respirar a fumaça venenosa da fábrica e, ao mesmo, entoar cânticos de amor pela cidade. Ao invés de preservar as múltiplas formas de vida como forma de aperfeiçoamento, o ornitorrinco ipatinguense sintetiza a diversidade para congelá-la a um passado manchado de sangue e mantê-la inerte num presente sufocado pelo esquecimento. Somente uma criatura com muitos recursos poderia sobreviver nesse habitat tão inóspito. Temos órgãos de espécies de eras distintas e estamos bem adaptados para resistir ao horror com paciência.

Essa mutação maligna não nos faz uma espécie melhor, ao contrário, nos desumaniza. Aqui todos nós dançamos ao ritmo da opressão, na maior parte do tempo, sem nos darmos conta disso. Ainda bem que existe o Grupo Hidridus para nos alertar sobre essa verdade constrangedora. Então, é imperativo o anúncio de uma coreografia nova que nos liberte para a vida que inventaremos juntos. Uma tarefa que só cabe a nós, Homus Ipatinguensys.

Sávio Tarso
Cineasta documentarista e professor universitário, diretor do premiado curta-metragem “Sobre Borboletas e Outras Histórias” (Vídeo Plus, 2025).
Janeiro/2026