A dança entre o desaparecimento e a permanência

Foto de “Da Carne ao Corte” do Hibridus apresentado no 1,2 na Dança em 2004 no extinto Teatro Alterosa em BH.

Por Wenderson Godoi

No último sábado, 8 de agosto, pouco antes da mesa sobre os festivais de dança no Brasil, Jackie Castro convidou Luciano e a mim para irmos ao camarim do Teatro Marília. Lá, encontramos alguns álbuns com fotografias das antigas edições da 1, 2 na Dança. Quando começamos a folheá-los, deparamo-nos com nossos corpos em cena no ano de 2005, dançando no Teatro Alterosa.

Fazia muito tempo que eu não via aquelas imagens. Talvez nunca as tivesse visto daquela forma, reunidas e guardadas por alguém que compreendeu que produzir um festival também é cuidar de sua memória.

Vinte e um anos depois, as fotografias nos devolviam trabalhos que já não dançamos, corpos transformados pelo tempo e um teatro que não existe mais. Instalado no histórico Palácio do Rádio, no bairro Floresta, o Teatro Alterosa fechou as portas em 2017, após perder o patrocínio que o mantinha. Reformado, o prédio ganhou outra função, e o antigo auditório tornou-se o Supernova Studio. A arquitetura permaneceu, mas a dança perdeu um de seus espaços. Diante daquelas imagens, não senti que observava uma lembrança encerrada. Elas continuavam trabalhando, fazendo 2005 interferir diretamente naquele sábado de 2026.

Conheci Jackie Castro em 2004, em Ipatinga, quando ela estava na produção da MIP – Manifestação Internacional de Performance na cidade. Naquele mesmo ano, fomos convidados para a primeira edição do 1, 2 na Dança, em Belo Horizonte. Carlos Passos e eu apresentamos um pequeno duo retirado de Ossos Secos, um dos primeiros trabalhos do Hibridus, que havia estreado pouco tempo antes. A mostra acontecia no Teatro Alterosa.

Voltamos em 2005 com dois trabalhos dirigidos por Clênio Magalhães: ?, com Leila Cunha e Luciano Botelho, e Carne e Pedra, comigo e Luciano. Em 2013, participamos novamente com o projeto Solos Hibridus: Cloenes, Luciano e eu apresentamos Submersa, Re-forma e Prumo. Em outras edições, estivemos também como curadores convidados. A relação cresceu para além das apresentações. Ainda em 2005, o ENARTCi recebeu, em Ipatinga, parte da programação do 1, 2 na Dança. Jackie retornou várias vezes à cidade, produzindo ações com Dudude Herrmann, Dança Jovem e outros artistas que passaram pelo ENARTCi.

Quando se olha para essa trajetória, fica evidente que um festival faz muito mais do que colocar espetáculos em cartaz. Ele aproxima pessoas que dificilmente se encontrariam, desloca trabalhos, cria cumplicidades e interfere no rumo das carreiras. Muitas vezes, uma obra chega a outra cidade porque alguém a viu num festival, conversou com o artista depois da sessão ou decidiu insistir numa parceria.

Nada disso cabe direito numa planilha.

O 1, 2 na Dança aconteceu em Belo Horizonte de forma contínua entre 2004 e 2016. Depois, ficou dez anos fora de cena. Voltou em 2026 com uma programação dedicada ao feminino na dança. Esses dez anos não devem ser tratados como um intervalo vazio entre duas edições. Uma geração inteira de artistas começou a dançar sem encontrar a mostra acontecendo. Nesse período, desapareceram possibilidades de estreia, intercâmbio, circulação e acompanhamento de trajetórias.

Quando um festival deixa de acontecer, o prejuízo não se restringe àquela temporada. Há uma rede que se desfaz aos poucos.

Por isso, voltar depois de dez anos não significa retomar exatamente de onde se parou. Esse intervalo atravessou um dos períodos mais duros da história recente da cultura brasileira. Logo após a última edição, em 2016, houve uma primeira tentativa de extinguir o Ministério da Cultura, revertida pela mobilização do setor. Em 2019, o governo Bolsonaro concretizou o desmonte: acabou com o MinC e rebaixou a cultura a uma secretaria, primeiro vinculada ao Ministério da Cidadania e depois ao Ministério do Turismo. O país ainda enfrentaria a pandemia da Covid-19, que fechou teatros, interrompeu festivais e atingiu de maneira brutal quem dependia da presença, da circulação e do encontro para trabalhar. O Ministério da Cultura só recuperou seu lugar institucional em 2023. Foram anos de descontinuidade, perdas e sobrevivência.

Nesse tempo, políticas mudaram, teatros fecharam, novos artistas chegaram e outros já não estão aqui. Ao revisitar a história da mostra, Jackie fez um levantamento e constatou que vários artistas que passaram pelo 1, 2 na Dança morreram ao longo desses anos. A ausência deles dá outra medida ao tempo: a mostra retorna, mas já não pode reunir integralmente a comunidade que ajudou a construir. A edição O Feminino na Dança reconhece algo dessa transformação ao aproximar mulheres de diferentes gerações, trazendo de volta artistas que participaram de edições anteriores e abrindo espaço para outras, selecionadas por convocatória.

Senti muito orgulho de ter dançado na primeira edição e retornar agora para a mesa “E os festivais de dança no Brasil? Atualizações e urgências para a construção de um novo tempo”. A conversa reuniu Marise Dinis, responsável pela mediação, Duna Dias, Ítalo Augusto e Cida Falabella, atualmente secretária municipal de Cultura de Belo Horizonte. Todas elas já haviam passado por Ipatinga em alguma ação realizada pelo Hibridus. Por isso, aquele encontro não começava ali. Havia uma história anterior, construída em diferentes momentos entre a capital e o interior, que voltava a nos colocar na mesma roda.

Ítalo e eu éramos os únicos homens numa programação dedicada ao feminino. Eu era também o único participante da mesa vindo do interior. Estar ali significava ocupar um espaço que raramente é destinado a quem produz longe da capital: não o lugar de quem oferece um relato regional, mas o de quem participa da formulação sobre os rumos da dança e de suas políticas.
Não considero esse dado pequeno. A dança produzida fora das capitais ainda costuma ser chamada para ocupar o lugar da experiência regional, quase nunca o lugar do pensamento. Como se ao interior coubesse fazer, enquanto a formulação continuasse reservada aos centros. Estar naquela mesa era levar comigo uma história construída em Ipatinga no Vale do Aço, com todas as dificuldades de sustentar um festival de dança contemporânea longe das estruturas concentradas em Belo Horizonte.

O ENARTCi começou em 2003, um ano antes do 1, 2 na Dança. Foi realizado continuamente até 2014 e teve, em 2016, sua última edição exclusivamente dedicada à dança antes da retomada deste ano. A partir de 2020, para sobreviver, precisou se camuflar dentro de um festival maior, dedicado a diferentes linguagens artísticas. “Camuflar” talvez seja a palavra mais honesta. A dança continuava ali, mas precisou mudar sua aparência para não desaparecer.

Em julho de 2026 realizamos a 18ª edição e voltamos ao formato com o qual o ENARTCi nasceu: um encontro de dança contemporânea. No mês seguinte, o 1, 2 na Dança também retornou depois de dez anos. Há algo muito bonito nessas duas retomadas, mas há também um alerta. Não deveríamos precisar celebrar como renascimento aquilo que uma política cultural continuada poderia ter impedido de morrer.

A mesa no Teatro Marília foi importante porque a conversa não se limitou a comemorar a volta da mostra. Falamos do enfraquecimento dos festivais, da circulação cada vez mais difícil, da perda de espaços e da descontinuidade dos recursos. A participação do público qualificou ainda mais o encontro. A transmissão ao vivo fez a conversa alcançar pessoas que estavam fora de Belo Horizonte.

Agora é preciso descobrir como fazê-la continuar.

Marise Diniz me escreveu depois dizendo que debates realizados por WhatsApp podem criar mais desacertos do que articulação. Concordo com ela. Trocar mensagens não significa construir uma ação coletiva. No WhatsApp, os assuntos chegam fragmentados, as respostas se sobrepõem e quase sempre reagimos antes de escutar. Dá uma sensação de movimento, mas nem sempre algo se move de fato.

A conversa presencial exige outra disponibilidade. Há corpo, tom de voz, hesitação, discordância e tempo para uma ideia modificar a outra. Foi isso que aconteceu no Marília. Não saímos da mesa com uma solução pronta, mas conseguimos reconhecer problemas comuns. Às vezes, uma articulação começa justamente quando paramos de fingir que já sabemos a resposta.
Marise também falou da necessidade de lutar por todas as danças sem abandonar a dança contemporânea e os artistas que dedicaram uma vida inteira a ela. Sua frase ficou comigo: “Não se pode acender algo apagando outra coisa.”

O reconhecimento da diversidade das danças é uma conquista política que precisa avançar. O problema aparece quando a ampliação se transforma num revezamento de exclusões. Uma linguagem passa a receber atenção enquanto outra é abandonada. Um território é incluído e outro desaparece. Projetos novos são celebrados, mas trajetórias de décadas ficam sem condições mínimas de continuidade. Não há reparação possível quando a política apenas escolhe quem será apagado desta vez.

A Política Nacional Aldir Blanc tornou possível o retorno do 1, 2 na Dança. A dimensão da PNAB não pode ser desprezada: são R$ 15 bilhões previstos para estados e municípios, com repasses de até R$ 3 bilhões por ano. O segundo ciclo alcançou todos os estados e o Distrito Federal, além de 99,9% dos municípios. Pela primeira vez, temos a possibilidade concreta de uma política federativa e continuada de fomento atingir quase todo o país.

Mas recurso distribuído não é sinônimo de política estruturada.

Um edital pode pagar uma edição e não assegurar a seguinte. Pode custear cachês, passagens, hospedagens e locações durante quatro dias, deixando sem apoio todo o trabalho realizado antes e depois. Quem acompanha artistas? Quem pesquisa os trabalhos? Quem preserva os documentos? Quem mantém as relações entre uma edição e outra? Quem paga a equipe quando o festival não está visível?

A vida de um festival é muito maior do que os dias impressos no programa. Se a política pública só enxerga o momento da apresentação, continuará financiando eventos sem sustentar os processos que os tornam possíveis.

À noite, assisti a Quem a mim nomeou o mundo?, de Maria Fernanda Figueiró, e Resistência, de Aline Corrêa. Depois de uma tarde discutindo desaparecimentos e permanências, os dois solos ganharam uma proximidade inesperada com a conversa da mesa.

O trabalho de Maria Fernanda parte de uma pergunta que nunca é inocente: quem tem o poder de nomear? As palavras usadas para definir os corpos também estabelecem limites. Organizam o que será reconhecido como homem ou mulher, normal ou desviante, possível ou impossível. Uma palavra pode produzir pertencimento, mas também pode cercar um corpo até que ele já não encontre espaço para se mover.

Em Quem a mim nomeou o mundo?, essa disputa deixa de ser apenas uma questão discursiva e ganha materialidade. Em determinado momento, Maria Fernanda dança enquanto cospe pérolas. Não são poucas, nem saem de uma só vez. Durante um longo tempo, elas atravessam sua boca, caem e se espalham pelo palco. Aquilo que poderia simbolizar beleza, delicadeza ou valor torna-se incômodo, excesso, algo que o corpo precisa expulsar para continuar.

Perto do final, a ação se inverte. De quatro, Maria Fernanda percorre o chão recolhendo as pérolas, uma a uma, e volta a comê-las. A luz diminui enquanto ela continua. O palco escurece antes que possamos saber se todas foram recuperadas. Essa imagem permanece porque não oferece libertação fácil. O que foi expelido precisa ser novamente engolido. As normas, os nomes e as violências que atravessam um corpo não desaparecem apenas porque foram recusados. O mundo continua exigindo que sejam recolhidos, incorporados e carregados outra vez.
A pergunta do título permanece aberta. Quem nomeou? A família, a religião, a escola, o Estado, a medicina? E o que acontece quando um corpo tenta devolver os nomes e os destinos que prepararam para ele, mas precisa sobreviver no mesmo mundo que os produziu?

Saí do solo pensando também em quem nomeia a dança brasileira. Quem decide quais produções serão consideradas centrais, quais festivais merecem permanecer e quais cidades aparecerão apenas nas bordas do mapa? Os centros não nascem centros. São produzidos pela repetição dos investimentos, pela concentração dos equipamentos, pela presença da imprensa e pela circulação insistente dos mesmos agentes. A periferia também é uma fabricação política. Como as pérolas espalhadas pelo palco, alguns corpos, obras e territórios são obrigados a recolher e reengolir os lugares que lhes foram atribuídos.

Em seguida veio Resistência. No trabalho de Aline Corrêa, o corpo carrega aquilo que viveu sem se transformar numa peça de museu de si mesmo. As marcas não desaparecem, mas também não impedem que o presente produza outra coisa. Resistir, ali, não parecia uma pose de força. Havia o esforço de continuar com as cicatrizes, não apesar delas.

Os dois solos se tocaram sem precisar dizer a mesma coisa. Maria Fernanda perguntava pelos nomes que tentam determinar uma vida. Aline apresentava um corpo que atravessou experiências e precisou descobrir como permanecer. Entre os dois trabalhos, pensei na própria mostra. O 1, 2 na Dança também retornava marcada pelo que viveu, pelo tempo em que esteve ausente e pelas relações que não deixaram sua história desaparecer completamente.

Depois das apresentações, fomos jantar no restaurante Casa dos Contos. Denise Stutz estava conosco. Ela integrou a programação desta edição, esteve algumas vezes no ENARTCi e havia anos que não nos encontrávamos. Também estavam Marise Dinis, Rosinha Antuña e a artista carioca Maria Alice Poppe. Encontrá-la tinha um sabor especial: poucos dias antes, Thereza Rocha havia nos presenteado com seu livro O chamado da queda: errâncias do corpo na dança e falado longamente sobre sua pesquisa e seu trabalho. De repente, aquela artista que vinha chegando até nós pela leitura e pelas palavras de Thereza estava ali, partilhando a mesma mesa de jantar.

Joana D’Arc, gestora do Teatro Marília, iluminadora e produtora cultural, também participou desse encontro. Conversamos muito ao longo da noite. Foi ela quem nos deu carona do teatro até a Casa dos Contos, fazendo com que a conversa começasse ainda no trajeto e continuasse ao redor da mesa. Entre lembranças, reencontros e novas aproximações, tentávamos compreender o momento que a dança está vivendo.

Aquilo também fazia parte da mostra.

Os encontros mais importantes de um festival nem sempre aparecem na programação. Acontecem no camarim, no saguão, dentro de um carro ou em torno de uma mesa depois do espetáculo. Foi nesses intervalos que a distância dos anos diminuiu. Reencontramos Denise, continuamos com Marise questões que a mesa não poderia esgotar e pudemos estar novamente com Rosinha. Maria Alice, que poucos dias antes conhecíamos pelas palavras de Thereza e pelas páginas de seu livro, ganhou voz e presença diante de nós. Com Joana, a relação iniciada no Teatro Marília atravessou a carona e chegou ao jantar. A mostra continuava acontecendo, mesmo depois que as luzes do palco se apagaram.

No mesmo dia, passei das fotografias de 2005, encontradas no camarim, ao jantar de 2026. De um lado, o arquivo; do outro, o encontro ainda acontecendo. Não consigo separar uma coisa da outra. As fotografias só chegaram até nós porque alguém decidiu guardá-las. As relações também precisam de gente disposta a cuidar.

O Teatro Alterosa já não existe. O 1, 2 na Dança ficou uma década sem acontecer. O ENARTCi precisou esconder-se dentro de outro formato. Muitos festivais brasileiros diminuíram, foram interrompidos ou desapareceram sem deixar sequer um arquivo organizado. Não dá mais para tratar essas perdas como acidentes isolados.

Durante muito tempo, aprendemos a apresentar a resistência dos artistas como uma virtude. E ela é. O perigo começa quando o Estado transforma essa capacidade em método de gestão: reduz o recurso, interrompe os programas e espera que os artistas inventem alguma saída. Depois, quando um projeto retorna, celebra sua força como se não tivesse responsabilidade por sua ausência.

Resistir não pode continuar sendo nossa única política cultural.

Em 2004, entrei no Teatro Alterosa para dançar na primeira edição da 1, 2 na Dança. Em 2026, entrei no Teatro Marília para discutir por que festivais como esse encontram tanta dificuldade para permanecer. Entre uma entrada e outra, há quase toda a minha vida na dança.

Talvez seja isso que os festivais guardem quando quase tudo ao redor desaparece: não apenas os trabalhos apresentados, mas os fios que ligam uma pessoa à outra, uma cidade à outra e um tempo ao seguinte.

O futuro da dança depende desses fios. E não há futuro possível quando, para acender uma nova luz, escolhemos deixar todo o resto no escuro.

Fotos: Acervo Pessoal