Sobre a 5ª Parada do Orgulho LGBTQIAPN+ do Vale do Mucuri
Por Wenderson Godoi
Uma Parada começa muito antes de ocupar a rua. Começa quando alguém decide que certos corpos não deveriam estar nela. E continua depois que a praça esvazia: nas fotografias compartilhadas, nas conversas, nos comentários agressivos, no medo e também na lembrança de que, durante alguns dias, a cidade foi obrigada a conviver com existências que ainda insistem em empurrar para fora de seu campo de visão.
Entre os dias 13 e 16 de agosto de 2026, a 5ª Parada do Orgulho LGBTQIAPN+ do Vale do Mucuri atravessou Teófilo Otoni. Não esteve restrita a um palco ou a um cortejo. Espalhou-se pelo auditório da OAB, pelo Instituto In-Cena, pela Livraria Papo Café, pelo Anfiteatro da Praça Tiradentes, pelo Sérgio’s Fashion e pela Praça de Esportes do bairro Grão-Pará.
Esse deslocamento desenhou outra cartografia da cidade. Em cada lugar, uma pergunta: onde podemos falar? Onde nossos corpos podem aparecer sem pedir licença? Onde é possível dançar, jogar, estudar, celebrar, discordar e demonstrar afeto sem que isso seja tomado como provocação?
Realizada pelo Ponto de Cultura Instituto In-Cena e pelo Coletivo LGBTudo, a quinta edição reuniu palestra, slam, shows, teatro, dança, videodança, performances, encontro de movimentos sociais, debate sobre gênero e sexualidade nas escolas públicas, festa e campeonato de Gaymada. Não eram atividades apenas colocadas uma depois da outra. Entre elas se formava uma rede e, para quem vive em territórios onde quase não existem políticas permanentes destinadas à população LGBTQIAPN+, uma rede pode ser a diferença entre continuar ou desaparecer.
Um post sobre a Parada ultrapassou 32 mil visualizações em menos de 24 horas. Poderia ser comemorado como alcance. Mas parte dessa circulação veio acompanhada de ataques, preconceito e ameaças dirigidas ao Instituto In-Cena e às pessoas envolvidas na realização do encontro.
Aí aparece uma contradição que não pode ser ignorada: visibilidade não é sinônimo de reconhecimento.
O algoritmo registra movimento. Não importa se alguém chegou para apoiar ou ameaçar. Comentários violentos também aumentam o engajamento; o ódio ajuda a postagem a circular. Para a plataforma, é desempenho. Para quem está do outro lado da tela, o cálculo é bem diferente.
A ameaça chega ao corpo. Chega a André Luiz Dias, a Bruny Murucci, à equipe do Instituto In-Cena, aos integrantes da LGBTudo, aos artistas e a quem empresta seu nome e seu rosto à construção da Parada. Não se dirige a uma instituição abstrata, mas a pessoas que trabalham em um endereço conhecido, cumprem uma rotina e vivem na cidade em que são ameaçadas.
Também não se trata de um episódio isolado. Na edição de 2025, uma bomba de artifício foi lançada nas proximidades da programação realizada na Praça Tiradentes. Em 2024, segundo relato de André Luiz Dias, um jovem foi agredido dentro de um ônibus depois de defender a realização da Parada.
Quando uma celebração do direito de existir provoca ameaças contra quem a realiza, a própria violência explica por que o encontro ainda é necessário.
A programação começou no auditório da OAB com a palestra O fim do silêncio: o contraste entre a celebração do orgulho e o silenciamento de vítimas de abusos, conduzida por Saulo Lauar e Flávio César Barros.
Silêncio não é somente falta de voz. Muitas vezes é aquilo que sobra depois do medo, da dependência, da vergonha, do descrédito e da ameaça. Há quem não fale porque sabe quanto pode custar: a família, o emprego, a casa, a escola, a igreja ou a própria segurança.
Falar pode ser um gesto político, mas não deveria ser uma tarefa solitária imposta a quem sofreu a violência. Uma fala precisa encontrar escuta. E a escuta precisa ser capaz de sustentar o que acontece depois.
Por isso, a presença da OAB, da universidade, dos movimentos sociais, dos coletivos e do poder público não pode funcionar apenas como chancela institucional. A Parada revela demandas que permanecem quando termina a festa. Sem continuidade, a cada edição será preciso começar novamente do ponto em que nunca deveríamos ter parado.
Foi a primeira vez que o Hibridus participou da Parada de Teófilo Otoni. Saímos do Vale do Aço levando dois solos de Luciano Botelho e duas videodanças. Levamos também o desejo de conhecer como outro território do interior de Minas constrói suas estratégias de encontro e permanência.
Não chegamos, no entanto, como quem leva cultura para um lugar supostamente vazio. Encontramos uma articulação criada e sustentada há anos pelo Instituto In-Cena e pela LGBTudo.
Participar significou entrar nessa rede, perceber suas forças e seus riscos, e permitir que aquele contexto alterasse a leitura dos nossos próprios trabalhos.
Na abertura oficial, Luciano apresentou Re-forma, trabalho criado em colaboração com Marco Paulo Rolla. O solo põe o corpo diante das tentativas de ajustá-lo aos padrões de beleza, juventude, eficiência e desejo. A reforma costuma começar pela suposição de que algo está inadequado e precisa de conserto.
Em uma Parada, essa pergunta se desloca. Quantas vezes pessoas LGBTQIAPN+ foram tratadas como corpos a serem corrigidos, curados, disciplinados ou escondidos? Nesse contexto, produzir outra forma para si já não é obedecer à norma. Pode ser justamente escapar dela.
Antes do solo, a videodança AQUI havia lançado uma palavra curta e nada simples. Para corpos tantas vezes informados de que seu lugar é sempre outro, dizer “aqui” é ocupar uma posição. Esse aqui não vem pronto. Precisa ser criado, negociado e, em algumas situações, defendido.
Na noite seguinte, Luciano apresentou Verzeih Mir — Me perdoe, solo dirigido por Chaim Gebber e criado em Berlim, em 2014, a partir de experiências de deslocamento, memória, identidade e desejo.
O título abre um incômodo. Pessoas dissidentes aprendem muito cedo a pedir desculpas: pelo gesto, pela voz, pelo desejo, pela roupa, pelo afeto, por ocupar demais o espaço. “Me perdoe” pode ser dirigido a alguém, mas também carrega essa educação do constrangimento.
Na sede do Instituto In-Cena, cercado por artistas e pessoas LGBT+, o trabalho parecia devolver a pergunta ao público: perdão por quê?
A videodança …fora de todas as casas, de todas as lógicas antecedeu o solo. Seu título encontrava corpos que, por não caberem na família normativa ou nos destinos previamente organizados para eles, precisaram inventar outras formas de morada. Estar fora da casa não significa estar sem casa. Às vezes, a morada possível é construída entre pessoas.
Na sexta-feira, o Gira Minas 2 — Encontro dos Vales reuniu o CELLOS-MG e representantes de movimentos sociais, coletivos, serviços públicos e articulações dos Vales do Mucuri, Jequitinhonha, Rio Doce e Aço.
A presença desses territórios recolocou uma questão que atravessou toda a programação: como construir políticas LGBT+ fora das capitais?
Nos grandes centros estão concentrados os equipamentos, os serviços especializados, os recursos e muitas das organizações que atuam nesse campo. No interior, as distâncias não se medem apenas em quilômetros. Elas aparecem quando alguém precisa de acolhimento e não encontra um centro de referência; quando um servidor não sabe como atender uma pessoa trans; quando não há orçamento, dados ou políticas municipais; quando a proteção depende exclusivamente da coragem de poucos coletivos.
À noite, Antes que o vazio desnude silêncios, solo de Diego Martins, e as performances da LGBTudo e de artistas convidados fizeram essas discussões retornarem ao corpo.
A arte não estava ali para ilustrar o que já havia sido dito nas mesas. Ela produzia outro pensamento. Um pensamento que não separa memória, pele, presença, voz e movimento.
No sábado, a roda de conversa com Marcus Vinícius Nascimento e Júlio César de Souza, a partir do livro digital Gênero e sexualidade nas escolas públicas, levou a discussão para um dos territórios mais disputados do país: a escola.
A escola ensina matemática, português e história, mas também ensina quem pode sentar de qual maneira, quais brincadeiras pertencem aos meninos, quais gestos serão punidos e que famílias merecem aparecer nos livros. Há crianças e adolescentes que aprendem muito cedo a vigiar o corpo para sobreviver ao recreio.
Discutir gênero e sexualidade na educação não ameaça estudantes. A ameaça é deixá-los sozinhos diante do preconceito, sem palavras para compreender o que vivem e sem adultos preparados para acolhê-los.
Mais tarde, a Festa do Orgulho ocupou o Anfiteatro da Praça Tiradentes. O Coletivo LGBTudo, Gaby Camburão, DJs e artistas convidados estavam no centro da cidade e estar no centro era parte do que se dizia ali.
Entre os comentários feitos sobre a Parada, alguém perguntou por que não realizá-la dentro de um galpão fechado. Outra possibilidade sugerida seria levá-la para uma rua mais distante, afastada, escura. A pergunta parece propor apenas uma mudança de endereço, mas revela algo conhecido por pessoas LGBT+: vocês podem existir, desde que não sejam vistos. Podem se reunir, contanto que permaneçam longe do centro, da praça, das famílias e da paisagem que a cidade escolheu para representar a si mesma.
O galpão fechado e a rua escura atualizam a velha arquitetura do armário. Mudam as paredes, permanece o desejo de esconder.
Não queremos voltar para o armário. Também não queremos continuar guardados em caixinhas, confinados a espaços autorizados para que nossa presença não incomode. Como tem insistido Erika Hilton, não estamos pedindo licença para existir: ocupamos lugares que também são nossos por direito.
A festa continuou depois da praça. Às 23h59, o After da Duna ocupou o Sérgio’s Fashion e levou a Parada para dentro da madrugada.
Ali estavam a música eletrônica, o grave atravessando o corpo, o brilho, o som alto e as montações. No pajubá, montar-se não significa simplesmente vestir uma roupa. A montação inventa uma presença: mistura maquiagem, tecido, salto, cor, excesso, humor e desejo para produzir um corpo que não pretende passar despercebido. Depois de tanto tempo aprendendo a diminuir os gestos, há uma força particular em escolher aparecer demais.
Paradas LGBT+ são frequentemente criticadas por serem “só festa”. A frase tenta reduzir a celebração a algo vazio, como se dançar diminuísse a gravidade da luta ou anulasse tudo o que aconteceu antes: a palestra sobre abusos, o encontro dos movimentos sociais, as discussões sobre políticas públicas, o teatro, a dança e o debate sobre gênero e sexualidade nas escolas.
Essa crítica também pressupõe que a política, para ser respeitada, precisa ser sisuda, comportada e sem prazer. Como se nossos corpos fossem politicamente legítimos apenas quando aparecem sofrendo, denunciando violências ou pedindo direitos.
Mas gostamos de festa. Gostamos de música, alegria, brilho, encontro e som alto. E não existe contradição alguma nisso.
Luiz Antonio Simas diz que a luta e a festa são irmãs. A formulação ajuda a compreender o que aconteceu na Parada e seguiu naquela madrugada: a festa não interrompeu a dimensão política da Parada; deu a ela outro corpo. José Esteban Muñoz, ao pensar as pistas, as performances e as noites queer, percebe nesses encontros a possibilidade de experimentar um mundo que ainda não existe por inteiro. Por algumas horas, os corpos criam entre si modos de convivência que o cotidiano lhes nega.
A pista não elimina a violência que nos espera do lado de fora. O grave não apaga as ameaças recebidas pelo Instituto In-Cena. A luz não resolve a ausência de políticas públicas. Ainda assim, alguma coisa acontece quando dançamos juntos. Reconhecemo-nos, inventamos proximidades e celebramos a possibilidade de termos chegado até aqui.
Depois de uma história marcada por perseguições, expulsões, silenciamentos, adoecimento e morte, celebrar a própria existência não é superficialidade. É orgulho.
Não queremos ser lembrados somente pelo que suportamos. Queremos falar também do prazer de estar vivos. Naquela noite, cada montação, cada corpo suado e cada dança dizia à sua maneira: apesar de tudo, estamos aqui e estar aqui também merece festa.
No domingo pela manhã, a programação terminou com o campeonato de Gaymada. O nome pode provocar riso, mas a mudança de uma palavra transforma o campo inteiro.
A antiga queimada, tão conhecida das escolas, carrega também lembranças de vigilância e constrangimento. O esporte escolar foi, para muitas crianças e adolescentes LGBT+, o lugar onde o gesto afeminado, o corpo pouco atlético ou a inadequação aos padrões de masculinidade se tornavam motivo de humilhação.
Quando a queimada vira Gaymada, muda quem se sente chamado para a quadra. O jogo é apropriado por quem tantas vezes foi escolhido por último, expulso simbolicamente ou obrigado a esconder o próprio corpo para participar. Na Gaymada, ninguém entra pedindo para ser tolerado. Entra para jogar.
Nós, do Hibridus, também entramos na quadra. Depois de dois solos, duas videodanças e dias de conversas sobre violência, educação, políticas públicas e direito à cidade, foi preciso correr, lançar a bola, desviar, errar e retornar ao jogo.
Talvez uma Parada também seja isso: a possibilidade de voltar para um jogo do qual tentaram nos retirar.
Viver não pode ser apenas resistir. A palavra resistência acompanha quase tudo o que se escreve sobre pessoas LGBT+. Ela é importante, mas traz um risco: transformar determinados corpos em especialistas em suportar violência.
O Instituto In-Cena e a LGBTudo não deveriam precisar sobreviver a ameaças para comprovar sua relevância. Seus integrantes não podem ser reconhecidos apenas pela coragem de continuar. É preciso garantir segurança, recursos, políticas públicas e condições reais de trabalho.
A 5ª Parada nasceu de uma articulação extensa entre artistas, movimentos sociais, universidades, poder público, organizações culturais, comerciantes e trabalhadores. Isso mostra que sua realização não diz respeito somente a quem aparece no palco ou assina a produção. A Parada também pertence à cidade que ela ajuda a imaginar.
Resta saber se Teófilo Otoni reconhecerá essa construção apenas durante quatro dias ou se será capaz de transformá-la em compromisso cotidiano.
Uma Parada não elimina a LGBTfobia. Mas dificulta a estratégia de fingir que ela não existe.
Também não cria sozinha uma cidade inclusiva. Durante algum tempo, porém, ensaia outra cidade dentro daquela que já conhecemos. O auditório, a sede cultural, a livraria, a praça e a quadra passam a formar um território no qual existir deixa de ser uma experiência isolada.
Talvez esteja aí a força da Parada do Vale do Mucuri: transformar em relação aquilo que a violência tenta manter separado.
Foram mais de 32 mil visualizações. O algoritmo guardou um número; nós guardamos os encontros, as palavras ditas depois de tantos silêncios, os corpos dançando, as montações e a alegria de descobrir que ninguém precisava atravessar aqueles dias sozinho.
A violência tentou nos devolver ao medo. Sugeriram o galpão fechado, a rua distante, o lugar escuro. Ocupamos o centro.
Mas uma Parada não deveria terminar quando a programação acaba. Minas Gerais tem 853 municípios. Imaginemos uma Parada em cada um deles. Não a repetição de um mesmo formato, mas 853 maneiras de ocupar praças, escolas, teatros, quadras, ruas e madrugadas. Que ninguém precise viajar até uma capital para encontrar orgulho, proteção e pertencimento.
Imaginemos também uma Parada em movimento pelos interiores. Uma Parada que atravesse o Vale do Mucuri, encontre o Jequitinhonha, siga pelo Rio Doce e chegue ao Vale do Aço. Um vale chamando o outro, compartilhando artistas, experiências, políticas, festas e estratégias de permanência.
Entre pessoas LGBT+, “ser do Vale” tornou-se uma brincadeira afetiva. Uma expressão nascida de uma tentativa de condenação foi apropriada para imaginar um lugar onde poderíamos viver juntos, protegidos e felizes. Em Minas, talvez possamos levar a brincadeira a sério: fazer com que esse Vale deixe de ser apenas imaginário e se espalhe pelos vales que existem no mapa.
A 5ª Parada terminou, mas deixou uma direção. Que o orgulho desça e suba os vales, atravesse estradas e chegue às cidades pequenas, aos distritos e às zonas rurais. Que encontre quem ainda acredita estar sozinho e abra, em cada território, um lugar sob a luz.
Não queremos ser melhores nem piores. Queremos estar no centro, na praça, na escola, na arte, na festa e na cidade, com todo mundo.
Se Minas tem 853 municípios, que existam 853 possibilidades de orgulho. Até que cada pessoa LGBT+ possa olhar ao redor, reconhecer os seus e dizer, sem medo: aqui também é o nosso Vale.
Foto: Lívia Ferreira


