A ferida e a forma

Por Wenderson Godoi

Assisti recentemente à minissérie Pela Metade (Half Man), uma produção recente que vem mobilizando debates sobre masculinidade, trauma e vulnerabilidade masculina. Não pretendo revelar sua trama. Basta dizer que é uma obra sobre homens que carregam dentro de si acontecimentos para os quais nunca encontraram palavras. Talvez tenha sido por isso que ela permaneceu comigo depois dos créditos finais. Em Pela Metade, o silêncio não aparece como ausência de fala, mas como uma estrutura que organiza vidas inteiras. Ao assistir Antes que o Silêncio Desnude Vazios, de Diego Martins, apresentado na 7ª edição do Projeto Solus – Mostra de Solos Verbais e Não Verbais do Grupo de Teatro Perna de Palco, tive a sensação de reencontrar essa mesma pergunta por outros caminhos: o que acontece quando um homem decide falar sobre aquilo que passou a vida tentando calar?

O espetáculo-performance parte de uma revelação difícil: aos oito anos de idade, Diego foi abusado sexualmente por um vizinho de dezoito. O agressor exigia silêncio. Décadas depois, esse silêncio retorna ao palco.

Mas o que interessa não é apenas o fato biográfico. O que interessa é como ele se transforma em cena.

O espaço é ocupado por dezenas de maçãs espalhadas pelo chão. Algumas reais. Outras cenográficas. A imagem produz uma ambiguidade poderosa. A maçã carrega séculos de simbologia: desejo, culpa, pecado, descoberta, expulsão do paraíso… Ao mesmo tempo, o artista associa essas frutas aos caixotes onde os abusos aconteciam. A metáfora religiosa encontra a memória concreta. O mito encontra a ferida.

O palco torna-se uma espécie de depósito de lembranças.

E é justamente aí que a obra encontra sua primeira camada política.

O menino que Diego coloca em cena não está sozinho. Entre 2015 e 2021, o Brasil registrou mais de 19 mil notificações de violência sexual contra meninos de até nove anos de idade. Os números impressionam, mas talvez impressione ainda mais aquilo que eles não conseguem medir. Os próprios boletins epidemiológicos alertam para a subnotificação desses casos. Meninos falam menos. Demoram mais. Às vezes nunca falam.

Há outro dado igualmente perturbador: na maioria dos registros, o agressor não é um desconhecido. É alguém próximo. Um familiar, um vizinho, uma pessoa de confiança, alguém que ocupa um lugar de afeto, convivência ou autoridade. A violência raramente chega de fora. Ela costuma nascer dentro dos círculos que deveriam proteger.

Talvez seja por isso que o silêncio se torne tão persistente. Falar não significa apenas narrar uma violência. Significa romper vínculos, desafiar hierarquias, confrontar afetos e reorganizar memórias. A masculinidade, antes de produzir homens, produz silêncios. E é justamente contra essa pedagogia do silêncio que Antes que o Silêncio Desnude Vazios parece se insurgir.

Vista retrospectivamente, a trajetória artística de Diego Martins torna essa nova obra ainda mais intrigante.

Durante anos, o artista construiu sua presença cênica através da comédia popular. Lindaurea Feia tornou-se figura conhecida em espetáculos como O Diário Sexual de uma Mulher Feia, A Comédia das Encalhadas, As Mentiras que as Mulheres Contam, entre outras produções. Em sua passagem pelo Casa Laboratório, montagens como O Que Querem as Mulheres? também recorriam ao feminino como matéria-prima dramatúrgica ou até mesmo em Santinhas do Pau Oco da Cia. Corpo de Prova, a qual Diego já fez participação.

Mas talvez essa produção mereça uma observação mais criteriosa do que a simples classificação de “besteirol”.

Grande parte desses trabalhos construía sua comicidade a partir de representações caricaturais das mulheres. Mulheres feias, encalhadas, mentirosas, excessivas ou desesperadas apareciam como território privilegiado do riso. A questão não é apenas perguntar se essas obras eram engraçadas. A questão é perguntar o que elas produziam.

Que imagem de mulher emergia dessas narrativas?

Talvez o ponto mais interessante esteja justamente aí. Em muitos desses trabalhos, o feminino parecia funcionar menos como experiência das mulheres e mais como projeção masculina sobre elas. O palco transformava-se num espaço onde desejos, inseguranças, medos e conflitos masculinos encontravam expressão através de personagens femininas.

Não se trata de estabelecer relações diretas entre biografia e criação. Mas, à luz de Antes que o Silêncio Desnude Vazios, torna-se inevitável revisitar essa produção e perguntar se aquelas personagens não operavam também como formas de deslocamento. Como se determinadas questões só pudessem ser ditas quando atribuídas a outro corpo, a outro gênero, a outra voz.
Talvez por isso o aspecto mais radical deste novo trabalho não seja a revelação do abuso sofrido na infância. O aspecto mais radical talvez seja o abandono da máscara.

Não há Lindaurea.

Não há freiras.

Não há caricatura.

Há apenas o próprio artista diante de uma memória que permaneceu interditada por décadas.

O humor desaparece. Em seu lugar surge algo muito mais arriscado: a vulnerabilidade.

E vulnerabilidade continua sendo uma palavra problemática para muitos homens.

Judith Butler talvez encontrasse aqui uma questão central. O espetáculo desmonta a ideia de masculinidade como identidade estável. O homem que entra em cena não apresenta força, controle ou domínio. Apresenta fissuras.

Mas essas fissuras não aparecem apenas no relato. Elas aparecem também no corpo.

Em determinado momento, Diego fala abertamente sobre os procedimentos estéticos que realizou ao longo da vida: retirada de papada, botox, lipoaspiração e outras intervenções. O dado poderia soar apenas como informação biográfica, mas sua presença na dramaturgia produz outra camada de leitura.

O corpo que ocupa a cena não é apenas um corpo atravessado por uma memória traumática. É também um corpo moldado por sucessivas tentativas de adequação.

Se durante décadas os estudos feministas denunciaram as pressões exercidas sobre os corpos das mulheres, os estudos contemporâneos das masculinidades mostram que os homens também passaram a ocupar, de forma crescente, esse mercado da correção permanente. O corpo masculino já não precisa apenas ser forte. Precisa ser jovem, desejável, produtivo e continuamente aperfeiçoável.

Nesse sentido, o espetáculo desloca uma pergunta importante: quantas dessas transformações pertencem ao desejo individual e quantas respondem a exigências socialmente produzidas?
A questão não surge como julgamento moral. Surge como sintoma.

O menino que um dia aprendeu a desconfiar do toque reaparece décadas depois administrando a própria imagem, negociando com o próprio corpo e reorganizando sua presença no mundo. Não porque exista uma relação causal simples entre abuso e procedimentos estéticos, mas porque a violência nem sempre permanece apenas na memória. Ela pode também alterar a forma como alguém passa a habitar o próprio corpo.

Talvez por isso o momento em que Diego se desnuda seja tão perturbador.

Não porque revele um corpo nu.

O teatro contemporâneo já superou há muito tempo o choque da nudez.

O que chama atenção é outra coisa.

Trata-se de um corpo desarmado.

Um corpo que carrega marcas visíveis e invisíveis. Um corpo tocado, modificado, protegido, corrigido e exposto ao longo dos anos.

É também o instante em que o espetáculo mais se aproxima de Pela Metade. Tanto a série quanto a performance parecem perguntar a mesma coisa: o que sobra de um homem quando a obrigação de ser forte falha?

O medo.

A dificuldade de afeto.

O corpo que se afasta.

O toque recusado.

O companheiro que nunca ouviu aquela história.

O menino que permaneceu preso entre caixotes de frutas.

Mas é justamente aqui que emerge a principal questão crítica da obra.

O espetáculo possui coragem, urgência e verdade emocional. No entanto, nem sempre consegue transformar essa verdade em linguagem cênica.

Existe uma diferença importante entre testemunhar e criar.

Em alguns momentos, a sensação é que Diego não interpreta a memória. Ele continua atravessado por ela. Isso produz potência, mas também produz um limite.

A arte não exige cura. Nenhuma obra precisa apresentar superações ou reconciliações. Mas a cena exige transformação. Exige que a experiência vivida atravesse sucessivos processos de elaboração até encontrar uma forma capaz de existir para além do acontecimento que a originou.

Talvez por isso eu saia do espetáculo desejando que Diego continue fazendo esta performance.

Que a repita.

Que a desgaste.

Que a refine.

Que a confronte novamente.

Não para apagar sua dor, nem para domesticá-la, mas para permitir que ela encontre outras camadas de existência artística.

Porque existe uma diferença entre carregar uma ferida para o palco e fazer dela matéria de criação.

As grandes performances não eliminam suas cicatrizes.

Elas transformam as cicatrizes em linguagem.

Hoje, Antes que o Silêncio Desnude Vazios já possui coragem, urgência e relevância. Mas talvez seja justamente no tempo, na repetição e nos reencontros com a própria obra que ela encontre sua forma mais potente.

Quando a dor deixar de ser apenas aquilo que é contado e passar a ser aquilo que o corpo sabe fazer.

Fotos: Ariel Bertola

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