Por Wenderson Godoi
No meio da apresentação, uma senhora parou seu carrinho de banana verde frita ao lado da roda que começava a se formar. Tirou o celular do bolso, mostrou o QR Code para quem aguardava, esperou o aviso sonoro do PIX, entregou a porção e voltou a empurrar o carrinho.
A dança continuou.
As crianças continuaram correndo.
Uma bicicleta atravessou a praça.
Um cachorro cruzou entre o público.
Ninguém pediu silêncio. Ninguém reclamou da interrupção. Ninguém imaginou que a praça precisasse suspender sua própria vida para que o espetáculo pudesse acontecer.
Talvez a imagem mais potente da Caravana da Filó – Arte e Comunidade não esteja em nenhuma fotografia oficial do evento.
Ela está exatamente aí.
Na arte esperando o PIX terminar.
Durante muito tempo aprendemos que uma obra precisava controlar o ambiente onde acontecia. O teatro apagava as luzes, fechava as portas, disciplinava os corpos e organizava a atenção para que tudo convergisse à cena.
Na Praça do Campo do Itamaraty aconteceu o contrário.
A praça não desligou para receber a arte.
Continuou sendo praça.
E foi justamente por isso que a arte aconteceu.
O que se viu naquela noite, entretanto, não começou ali.
Começou muitos anos antes.
Antes da Filó Incubadora Cultural existir, existia a Flux Cia. de Dança, também criada por Carlos Passos. Durante anos sua sede funcionou no bairro Bethânia. Não era uma escola escondida atrás de muros altos nem um equipamento cultural distante da vida cotidiana. Era uma loja de porta de vidro voltada para a rua.
Hoje percebo que aquela porta talvez fosse seu maior projeto artístico.
Ela permanecia aberta.
Quem viveu aquele espaço certamente se lembrará das crianças paradas na entrada assistindo aos ensaios, dos adolescentes entrando para beber água, pedir a senha do wi-fi, usar o banheiro ou simplesmente permanecer alguns minutos olhando o que acontecia na sala. Havia quem nunca tivesse feito uma aula de dança e, ainda assim, frequentava aquele lugar como quem frequenta a varanda de um vizinho.
Naquele momento, o Bethânia vivia outro contexto.
O bairro havia sido escolhido para receber um núcleo do Programa Fica Vivo!, política pública criada pelo Governo de Minas Gerais para prevenir homicídios entre jovens de 12 a 24 anos. A escolha não foi casual. Diagnósticos produzidos pelo CRISP/UFMG identificavam comunidades como Santa Rosa, São Francisco e Cruzeiro entre as áreas prioritárias para a implantação do programa em função dos índices de violência letal entre jovens.
Muitos daqueles adolescentes passaram pela sede da Flux.
Alguns chegaram pelas oficinas do próprio Fica Vivo.
Outros apenas porque aquela porta permanecia aberta.
Hoje, olhando para trás, talvez seja possível compreender que a Caravana começou ali.
Não como projeto.
Não como edital.
Nem como programação.
Começou como uma forma de construir relação com um território.
Existe uma diferença importante entre ocupar um bairro e pertencer a ele.
Ocupar é chegar.
Pertencer é permanecer.
Essa talvez seja a primeira qualidade da Caravana. Ela não produz a sensação de que a cultura está sendo levada ao Bethânia. Ao contrário. Ela retorna a um território que participou da própria construção da história da Filó.
Essa diferença muda completamente o sentido da ação.
Nos últimos anos, a Lei Paulo Gustavo – LPG e, sobretudo, a Política Nacional Aldir Blanc – PNAB alteraram profundamente o desenho das políticas culturais brasileiras. Pela primeira vez, mecanismos de ação afirmativa, territorialização do investimento e fortalecimento de culturas historicamente invisibilizadas passaram a ocupar o centro dos editais.
Durante décadas, a periferia apareceu nas políticas públicas principalmente como lugar de contrapartida. Produzia-se cultura em outro lugar. Depois ela era levada aos bairros, quase sempre como uma espécie de democratização do acesso.
A mudança proposta por essas políticas é mais profunda.
Ela parte do reconhecimento de que os territórios periféricos não esperavam a chegada da cultura.
Eles já a produziam.
Produziam memória.
Produziam pedagogias.
Produziam economias.
Produziam tecnologias de convivência.
Produziam arte.
Nesse sentido, a Caravana não inaugura nada.
Ela revela.
Revela que o Bethânia nunca foi apenas destinatário de ações culturais. Sempre foi produtor delas.
Talvez seja justamente aí que resida sua maior potência.
A programação reunia o Congado do Ipaneminha, a Associação Aidê, o Hibridus, a Rif Crew e Bboy Luizin, o Nós de Nariz, o Núcleo DançaDor, M.L.F. & Tambores do Vale e Mania de Filtros & Biojóias.
À primeira vista, poderia parecer apenas uma sucessão de atrações.
Mas a praça produzia outra leitura.
Ela colocava lado a lado temporalidades que raramente convivem nos espaços tradicionais de apresentação.
O Congado não aparecia como uma memória preservada em vitrines patrimoniais. Seus tambores produziam presente.
A capoeira recusava qualquer separação entre luta, dança, jogo e pedagogia.
O hip-hop reescrevia a geografia da praça a partir do corpo.
Os tambores reorganizavam a percepção do tempo.
O artesanato lembrava que cultura também é trabalho, matéria e economia.
A palhaçaria dissolvia qualquer pretensão de solenidade. Bastou um cachorro de pelúcia fazer piruetas para que a praça inteira reorganizasse sua atenção. O riso, ali, não diminuía a experiência estética; era ele quem lembrava que o espanto também é uma forma de conhecimento.
O Hibridus apresentou um trecho de ADEÓ. Criado a partir dos muitos chãos que constituem a história do grupo as memórias de seus espetáculos, as biografias de Luciano e Wenderson, as ancestralidades negras do GRUCON e a própria cidade de Ipatinga, ADEÓ parecia voltar ao lugar de onde sempre retirou sua força. Na praça, a obra deixava de ser apenas uma coreografia para reencontrar seu território. Os sons do bairro, as crianças correndo, os vendedores ambulantes e os tambores não interferiam na cena. Eram a própria cena, lembrando que certos trabalhos não se completam quando controlam o ambiente, mas quando aceitam ser atravessados por ele.
As crianças atravessavam continuamente o espaço da apresentação.
Os sons do bairro infiltravam-se na trilha.
Os olhares dividiam-se entre os intérpretes, os tambores, os vendedores ambulantes, os moradores e os acontecimentos cotidianos da praça.
O espetáculo já não podia controlar seu ambiente.
Precisava negociar com ele.
E talvez seja exatamente nesse momento que a dança deixa de ocupar um espaço e passa a produzir território.
Enquanto assistia às apresentações, lembrei imediatamente de outro trabalho do Hibridus: Travessia.
Há mais de vinte anos, aquele espetáculo já recusava transformar a cidade em cenário. A rua nunca era pano de fundo. Era matéria coreográfica.
Na época, Adriana Banana escreveu:
“Travessia se dedica a transformar significados dos lugares públicos onde o grupo realiza a sua dança; desse modo, Travessias indica que significados se fazem. Não são dados prontos, nem fixos e independentes de seus usos e práticas, mas fluxos.”
Ao final do texto ela perguntava:
“Não se configura autoritária a participação dos transeuntes em uma coreografia ou outra arte que se concebe em espaços públicos como a rua?”
Mais de vinte anos depois, talvez a pergunta possa ser deslocada.
Não seria igualmente autoritário imaginar que uma praça precisasse interromper sua própria vida para que a arte pudesse existir?
A Caravana parece responder recusando essa separação.
Ela não transforma a cidade em palco.
Permite que a cidade permaneça cidade.
As crianças não são obstáculos.
Os vendedores ambulantes não são ruídos.
Os cachorros não comprometem a cena.
A senhora da banana verde frita não interrompe o espetáculo.
Tudo isso passa a compor sua dramaturgia.
A praça também coreografa.
Há, entretanto, uma questão que permanece aberta.
E talvez seja justamente ela que faça da Caravana um acontecimento interessante para pensar.
Reunir Congado, hip-hop, capoeira, dança contemporânea, circo, tambores e artesanato numa mesma programação produz, necessariamente, encontro?
Ou produz apenas vizinhança?
A pergunta não diminui a potência da ação.
Ao contrário.
Ela aponta um desafio para as políticas culturais contemporâneas.
Compartilhar um palco não significa, automaticamente, compartilhar experiências, metodologias ou modos de produzir conhecimento.
O encontro precisa ser construído.
Talvez ele aconteça nos intervalos.
Nas conversas entre artistas.
Nas crianças que permanecem brincando depois das apresentações.
Nos moradores que descobrem que aquele grupo ensaia a poucos quarteirões de casa.
Na continuidade das relações muito depois que o palco é desmontado.
Talvez seja esse o próximo passo que políticas como a PNAB nos convidam a enfrentar: sair da lógica da programação para construir ecossistemas culturais onde linguagens diferentes não apenas coexistam, mas aprendam umas com as outras.
Ao final da noite, desmontaram caixas de som, cabos, refletores, banners e estruturas.
A senhora continuava vendendo banana verde frita.
As crianças continuavam correndo pela praça.
Os moradores continuavam conversando nas calçadas.
O Bethânia continuava sendo Bethânia.
Talvez seja esse o maior elogio que uma ação cultural possa receber.
Ela não interrompeu a vida da cidade para que a arte pudesse acontecer.
Durante algumas horas, conseguiu algo muito mais difícil.
Fez com que arte e cidade aceitassem coreografar uma à outra.
E, naquela noite, ficou evidente que a coreografia mais importante não estava apenas nos corpos dos artistas.
Ela acontecia no movimento imprevisível da própria praça.
Foto: Marcus Sena


