O menino que continua aceso

Por Wenderson Godoi

Há espetáculos que falam da infância. Outros falam da memória. Mas Infância: Caixas da Memória, de Marcos Marinho, parece interessado em algo mais raro: investigar o que o tempo faz com um corpo.

Apresentado na mostra SOLUS, na Casa do Teatro Perna de Palco, em Ipatinga, o espetáculo acontece numa proximidade incomum. O público está tão perto que acompanha o deslocamento dos objetos, a respiração do ator, a precisão dos gestos. Não há grandes aparatos cenográficos nem recursos destinados a produzir impacto imediato. Tudo se sustenta numa relação delicada entre corpo, objeto e presença.

No centro da cena estão as caixas.

Delas emergem pequenas lembranças, miniaturas, fragmentos de um mundo vivido entre os anos de infância do artista. À medida que são abertas, as caixas vão ocupando o espaço e desenhando ao redor do ator uma espécie de círculo. Não funcionam apenas como recipientes de memória. Tornam-se uma cartografia afetiva, um território composto por vestígios de experiências que continuam habitando o presente.

Mas talvez a força do espetáculo não esteja nas histórias que essas caixas guardam.

Está na forma como elas atravessam o corpo que as abre.

Marcos Marinho não tenta representar uma criança. Tampouco transforma a cena numa simples narrativa autobiográfica. O que vemos é um artista que atravessou décadas de vida encontrando, diante do público, os rastros daquilo que o constituiu.

E isso faz toda a diferença.

Porque a questão central do espetáculo não é a infância.

É a permanência.

Em uma das cenas mais belas da montagem, um pequeno vestido da avó surge de dentro de uma caixa. Minúsculo, quase do tamanho de uma roupa de boneca, ele é preso ao corpo do ator através de um pequeno cabide. Mais tarde, uma camisa infantil reaparece pelo mesmo procedimento.

A imagem possui uma simplicidade desconcertante.

As roupas já não cabem.

O corpo cresceu.

Envelheceu.

Transformou-se.

Mas continuam ali.

Suspensas sobre ele.

Como se certas pessoas, certos afetos e certas experiências jamais deixassem completamente de nos vestir.

Talvez seja nessa imagem que o espetáculo encontre sua formulação mais potente. Não somos feitos apenas das lembranças que guardamos. Somos feitos também das marcas que continuam agindo em nós muito depois de terem deixado de caber.

Há ainda uma dimensão técnica que ajuda a compreender a força dessa imagem. Marcos Marinho desenvolve há décadas uma pesquisa vinculada à Biomecânica de Vsevolod Meyerhold, abordagem que compreende o corpo não como consequência da emoção, mas como seu produtor. Em Infância: Caixas da Memória, essa herança aparece menos como demonstração de método e mais como uma ética da presença. Cada caixa é aberta com precisão, cada objeto encontra seu tempo de aparição, cada ação parece responder a uma partitura cuidadosamente construída. O ator não ilustra a memória; ele a produz fisicamente diante do espectador. Antes que a lembrança se transforme em narrativa, ela já se tornou gesto. Talvez seja justamente por isso que o espetáculo emocione sem recorrer ao sentimentalismo: as memórias não são apenas contadas, elas acontecem no corpo.

É nesse ponto que a presença de Marcos Marinho ganha uma dimensão singular.

Assistimos a um artista com décadas de pesquisa continuada em teatro ocupando a cena sem recorrer à grandiloquência. Há uma serenidade rara na maneira como conduz cada ação, manipula cada objeto e organiza cada deslocamento. Não se trata de um virtuosismo exibicionista, mas de algo mais difícil: a maturidade de quem aprendeu a confiar na potência do essencial.
Num momento em que boa parte da produção cultural parece submetida à velocidade, ao excesso de informação e à necessidade constante de novidade, Infância: Caixas da Memória reivindica outro tempo.

O tempo da escuta.

O tempo da elaboração.

O tempo da permanência.

Talvez por isso o espetáculo carregue também uma dimensão política, ainda que nunca a anuncie diretamente. Há algo profundamente significativo em ver um artista LGBT+, que atravessou décadas de teatro independente, de formação cultural, de resistência e de construção coletiva, continuar pesquisando, criando e compartilhando sua experiência através da cena. Em um campo artístico que frequentemente celebra a novidade e esquece seus mestres, sua presença reafirma o valor da continuidade, da memória e da transmissão entre gerações.
Não como nostalgia.

Mas como presença.

Ao final, as caixas se iluminam.

Depois de toda a apresentação funcionando como arquivos, elas passam a irradiar luz. O gesto poderia ser apenas uma solução visual para encerrar a narrativa. Mas acontece algo mais interessante. As caixas deixam de parecer recipientes de memória e passam a funcionar como pequenos faróis espalhados pelo espaço.

Aquilo que durante a apresentação esteve guardado agora permanece aceso.

Talvez seja essa a imagem que continua reverberando depois que o espetáculo termina.

A de um homem que abre caixas para reencontrar o menino que foi.

Mas também a de um artista que nos lembra que algumas coisas sobrevivem ao tempo.

As roupas já não cabem.

Os anos passaram.

O mundo mudou.

Mas certas memórias continuam nos vestindo.

E certas formas de fazer teatro continuam iluminando o caminho.

Fotos: Ariel Bertola

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