Por Wenderson Godoi
No dia 2 de junho de 2026, Luciano e eu embarcamos rumo a São Paulo para participar da 30ª Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo, acompanhados dos amigos Carlos Passos e Mauro Santos.
Não era nossa primeira vez.
A primeira aconteceu em 2012, na 16ª edição da Parada. Depois vieram 2019, 2022, 2023, 2024, 2025 e agora 2026.
Ao longo desses anos, vimos a Parada crescer, se transformar, mudar de perfil, mudar de pauta, mudar de escala.
Mas talvez nunca tenhamos chegado a São Paulo com tantas perguntas.
Porque a edição que celebrava os 30 anos da maior Parada LGBT+ do mundo parecia atravessada por uma contradição difícil de ignorar.
Quanto mais visíveis nos tornamos, mais gente parece desejar que desapareçamos.
Trinta anos depois, ainda querem nos tirar da rua.
Ainda querem retirar a Parada da Avenida Paulista.
Ainda querem impedir a presença de crianças.
Ainda querem transformar famílias LGBT+ em ameaça.
Ainda querem empurrar nossos corpos de volta para o armário.
E talvez a pergunta mais importante não seja por quê.
Talvez a pergunta seja:
O que existe em nossos corpos que continua provocando tanto medo?
Foi impossível caminhar pela Paulista sem lembrar de Judith Butler.
Os corpos não ocupam o espaço público de forma neutra.
Alguns corpos são esperados.
Outros são tolerados.
Outros são constantemente questionados.
A disputa em torno da Parada nunca foi apenas sobre trânsito.
Nunca foi apenas sobre segurança.
Nunca foi apenas sobre organização urbana.
Ela sempre foi uma disputa sobre quem tem direito de aparecer.
Quem tem direito de existir.
Quem tem direito de ocupar os espaços mais simbólicos da cidade.
Quem tem direito de ser visto.
O tema da Parada deste ano parecia compreender isso perfeitamente.
“A rua convoca, a urna confirma.”
Há uma inteligência política profunda nessa frase.
Porque ela inverte uma lógica muito presente na democracia liberal.
Ela não diz que a mudança começa nas instituições.
Ela diz que a mudança começa nos corpos.
Primeiro vem a rua.
Primeiro vêm os movimentos sociais.
Primeiro vêm as travestis expulsas de casa.
Primeiro vêm as lésbicas silenciadas.
Primeiro vêm os gays perseguidos.
Primeiro vêm as pessoas trans tentando sobreviver.
Primeiro vêm aqueles que ousam existir quando existir ainda é considerado uma afronta.
Só depois vêm as leis.
Só depois vêm as instituições.
Só depois vêm as urnas.
A rua convoca.
A urna confirma.
Mas talvez 2026 também tenha nos ensinado outra coisa.
Nem sempre a urna confirma.
Às vezes ela também ameaça.
E talvez seja justamente por isso que os direitos nunca possam ser tratados como conquistas definitivas.
Durante a semana da Parada, vimos avançar discursos defendendo a retirada do evento da Paulista.
Discursos que buscavam impedir a presença de crianças.
Discursos que voltavam a associar pessoas LGBT+ à destruição da família.
Tudo isso enquanto a própria Parada enfrentava uma redução de cerca de 60% de seus patrocínios.
Talvez esses acontecimentos não estejam desconectados.
Durante anos, grandes empresas descobriram o potencial econômico da população LGBT+.
Descobriram que viajamos.
Que consumimos cultura.
Que frequentamos restaurantes.
Que compramos roupas.
Que movimentamos hotéis.
Que sustentamos mercados inteiros.
Descobriram aquilo que passou a ser chamado de pink money.
E a Parada de São Paulo se tornou uma vitrine privilegiada dessa economia.
Milhões de pessoas chegam à cidade.
Pagam passagens.
Abastecem carros.
Compram passagens de ônibus.
Reservam hotéis.
Frequentam bares.
Boates.
Museus.
Feiras.
Exposições.
Nós mesmos fizemos tudo isso.
Fomos ao Brás.
À 25 de Março.
À Blue Space.
Ao Espaço Lagoa.
A exposições.
A restaurantes.
Consumimos a cidade.
Como fazem milhares de pessoas vindas de todo o Brasil e de vários lugares do mundo.
A Parada movimenta centenas de milhões de reais para a economia paulistana.
Mas a pergunta que ficou ecoando durante aqueles dias era outra.
Se produzimos tanta riqueza, por que justamente agora tantas empresas decidiram se afastar?
Talvez porque exista uma diferença entre apoiar pessoas LGBT+ e apoiar pessoas LGBT+ apenas quando isso é confortável.
Durante anos muitas marcas descobriram que podiam lucrar conosco.
Em 2026 descobrimos quantas delas estavam dispostas a permanecer quando apoiar a diversidade deixou de ser uma estratégia segura de marketing.
A perda dos patrocínios revelou uma contradição importante.
Nem toda bandeira colorida representa compromisso político.
Algumas representam apenas oportunidade de mercado.
E quando o mercado muda de direção, elas desaparecem.
Mas talvez a maior surpresa tenha sido perceber que a força da Parada continuava ali.
Não nas marcas.
Nas pessoas.
A controvérsia sobre o número de participantes revelou isso de forma curiosa.
Enquanto algumas metodologias apontavam números muito inferiores aos divulgados pela organização, bastava caminhar pela Paulista para perceber que a questão não era matemática.
Era política.
O que estava sendo medido?
Corpos?
Fluxos?
Presenças?
Impactos?
Porque a experiência concreta de quem estava ali dizia algo difícil de quantificar.
A rua continuava convocando.
E as pessoas continuavam respondendo.
Mas São Paulo não se resumiu à Parada.
Talvez tenha sido justamente fora dela que algumas das reflexões mais importantes surgiram.
Visitamos a exposição Todos os Rios: Identidades LGBTQIA+, realizada pelo Museu da Diversidade Sexual em parceria com a Pinacoteca.
Ali encontramos uma pergunta silenciosa atravessando toda a mostra.
Quem teve o direito de permanecer na história?
A exposição devolve memória a corpos que durante décadas foram apagados dos arquivos oficiais.
Corpos que existiram.
Amaram.
Criaram.
Produziram cultura.
E ainda assim foram frequentemente empurrados para as margens da narrativa nacional.
Guacira Lopes Louro talvez chamasse atenção para isso.
O corpo estranho nunca revela apenas algo sobre si.
Ele revela os limites da norma que tenta classificá-lo.
Também visitamos a exposição Mestre Didi – Invenção e Ancestralidade na Arte Afro-Brasileira.
E talvez ali eu tenha sentido uma ausência que atravessou boa parte da semana.
Sou um homem negro.
Minha formação política nasce do GRUCON – Grupo de União e Consciência Negra.
Do Afoxé.
Dos movimentos populares.
Da Teologia da Libertação.
Das comunidades de base.
Da cultura negra.
E ainda assim percebi como as discussões sobre diversidade sexual frequentemente continuam reproduzindo silêncios sobre raça.
A Parada era diversa.
Mas também era desigual.
Como é desigual o Brasil.
Como são desiguais as cidades.
Como são desiguais as oportunidades.
Bell hooks nos ensinou que não existem opressões isoladas.
Raça.
Classe.
Gênero.
Sexualidade.
Território.
Tudo se atravessa.
Tudo se mistura.
Tudo produz marcas sobre os corpos.
E talvez por isso a obra de Mestre Didi tenha sido tão necessária.
Ela nos lembra que não existe futuro possível sem memória.
Também visitamos o Casa Farofa.
E para quem constrói há mais de duas décadas um espaço cultural no interior de Minas Gerais, encontrar um lugar dedicado à criação, à convivência, à experimentação e ao encontro foi profundamente inspirador.
Ali a arte não aparece como produto.
Ela aparece como relação.
Como processo.
Como comunidade.
Como possibilidade de construir mundos.
Algo semelhante aconteceu diante da exposição Brilha Sonhos.
Porque sonhar também é um ato político.
Talvez a arte continue sendo um dos poucos lugares onde podemos experimentar futuros antes que eles existam.
Outro espaço fundamental foi a 25ª Feira Cultural da Diversidade LGBT+.
Ali encontramos uma cidade temporária construída pela própria comunidade.
OSCs.
Coletivos.
Empreendedores.
Projetos de saúde.
Artistas.
Editoras.
Artesãos.
Militantes.
Uma demonstração concreta de que a população LGBT+ não produz apenas identidade.
Produz economia.
Produz conhecimento.
Produz trabalho.
Produz cultura.
Produz mundo.
E talvez tenha sido justamente ali que percebi algo que os discursos conservadores jamais conseguem explicar.
As famílias.
Porque quem esteve na Feira.
Quem esteve na Paulista.
Quem esteve na Parada.
Viu famílias.
Crianças.
Avós.
Pais.
Mães.
Tios.
Primos.
Casais.
Afetos.
Convivência.
Eu e Luciano estamos juntos há quase três décadas.
Temos família.
Amamos nossa família.
Somos amados por ela.
Mas talvez a questão nem seja essa.
Talvez não devêssemos precisar provar nossa capacidade de amar para justificar nossos direitos.
Talvez não devêssemos precisar demonstrar que somos parecidos com a norma para sermos reconhecidos como cidadãos.
Porque o problema nunca foi a família.
O problema sempre foi o controle.
A tentativa de definir quais formas de vida merecem existir.
Quais afetos merecem reconhecimento.
Quais corpos merecem ocupar o espaço público.
Foi impossível não pensar nisso durante o almoço com Leonora Áquilla e Kylie Hickmann.
Falamos sobre a Parada.
Sobre a Acuenda.
Sobre comunicação.
Sobre representação.
Sobre os desafios enfrentados por quem produz cultura LGBT+ fora dos grandes centros.
E talvez esse encontro tenha sintetizado uma das principais lições da viagem.
Nenhuma conquista é individual.
Movimentos sobrevivem porque criam redes.
Criam alianças.
Criam circulação.
Criam comunidade.
Segunda-feira voltamos para Ipatinga.
Com malas mais pesadas.
Mas não apenas pelas compras.
Voltamos carregando perguntas.
Como transformar tudo isso em ação?
Como fortalecer a Acuenda?
Como fortalecer o Cineclube LGBT+?
Como fortalecer o Hibridus Pontão de Cultura?
Como produzir no Vale do Aço os encontros que testemunhamos em São Paulo?
Talvez a resposta esteja justamente naquilo que vimos durante toda a semana.
A cultura não sobrevive porque recebe autorização para existir.
Ela sobrevive porque pessoas insistem em fazê-la existir.
Trinta anos depois, a Parada continua sendo muito mais do que um evento.
Ela é um campo de disputa.
Uma aula pública de democracia.
Uma arena de conflitos.
Uma celebração.
Uma contradição.
Uma memória coletiva em movimento.
E talvez seja exatamente por isso que ela continue incomodando tanto.
Porque a Parada nunca foi apenas sobre ocupar uma avenida.
Ela sempre foi sobre ocupar o imaginário do país.
E enquanto houver quem tente nos retirar da rua, continuaremos respondendo ao chamado.
Porque a rua continua convocando.
Fotos: Divulgação.






