Por Wenderson Godoi
Há artistas que interpretam personagens. Há artistas que apresentam espetáculos. E há artistas que, depois de décadas atravessando uma cidade, transformam a própria trajetória em matéria cênica. Em Ana, o fogo anda comigo, apresentado por Claudiane Dias na Casa 28 Aberta durante a programação da 7ª edição do Solus, o que se vê não é exatamente um espetáculo. Tampouco uma performance. Menos ainda uma autobiografia teatral. O que acontece ali é um acontecimento performativo: uma convocação coletiva para habitar memórias, corpos, ancestralidades e afetos que se recusam a permanecer apenas como lembrança.
Acompanho o trabalho de Claudiane Dias desde 1999. Ao longo desses mais de vinte e cinco anos, vi muitas Claudianes atravessarem o palco: a atriz, a palhaça, a arte-educadora, a diretora, a militante cultural, a mulher que transformou o teatro em modo de vida. Também já havia encontrado, em outros momentos de sua trajetória, os textos que estruturam esta criação: Ana de Amsterdam, de Chico Buarque e Ruy Guerra; O Navio Negreiro, de Castro Alves; e Cântico Negro, de José Régio. Mas o que impressiona em Ana, o fogo anda comigo é justamente a forma como esses materiais retornam não como repertório, mas como vestígios de um corpo que envelheceu com eles.
Não são textos recitados.
São textos habitados.
O percurso começa antes mesmo da apresentação. O público atravessa os cômodos da Casa 28 Aberta, cercado por máscaras, imagens sacras, pretos-velhos, santos, oratórios, pinturas e objetos que parecem guardar histórias acumuladas pelo tempo. A arquitetura da experiência já anuncia algo fundamental: não se entra apenas em um espetáculo. Entra-se em um território de memória.
E essa escolha não é casual.
A Casa 28 Aberta, assim como o Grupo Farroupilha, o Bloco Cultural e Carnavalesco Afoxé, o Perna de Palco, realizador do Solus, e tantas outras iniciativas presentes naquela noite, compartilham uma condição rara: são Pontos de Cultura. A reunião desses coletivos produz algo que ultrapassa a programação artística. O que acontece ali é uma manifestação concreta da Política Nacional Cultura Viva em sua forma mais potente: a cultura produzida pelos próprios territórios, enraizada em suas comunidades, capaz de articular arte, memória, pertencimento e transformação social.
Antes mesmo que a apresentação se inicie formalmente, Claudiane já ocupa o espaço. Recebe quem chega, circula entre as pessoas, observa os movimentos do público e repete quase como um mantra:
— Tem que pulsar. Tem que pulsar.
Depois afirma:
— Eu pulso.
A frase aparentemente simples produz uma espécie de afinação coletiva. Não se trata apenas da pulsação biológica do corpo, mas daquilo que mantém vivas as memórias, as comunidades, os territórios e os afetos. O verbo pulsar surge ali como programa poético e político. Pulsar é permanecer. Pulsar é resistir. Pulsar é continuar produzindo vida apesar de tudo.
Por isso talvez a apresentação tenha assumido uma dimensão tão particular.
Não era apenas Claudiane.
Era uma rede inteira pulsando através dela.
No quintal de chão batido, cercado por árvores e iluminado por tons âmbar, surge Ana.
Descalça.
Vestida de preto.
Corpo disponível ao risco.
Corpo disponível ao desejo.
Corpo disponível à memória.
A primeira imagem é de uma simplicidade brutal. Claudiane pergunta se alguém quer fogo. Aproxima-se de um espectador fumante e risca um fósforo na própria calcinha para acender seu cigarro. O gesto produz desconforto, riso, surpresa, erotismo e vulnerabilidade ao mesmo tempo.
Não se trata de provocação gratuita.
É performatividade.
No sentido mais radical do termo.
O gesto não representa uma mulher livre. O gesto produz liberdade diante dos nossos olhos.
A ação não simboliza um corpo dissidente. Ela fabrica esse corpo no instante em que acontece.
Ao riscar novamente o fósforo, que insiste em não acender, a cena se desloca para outro campo. O fracasso passa a fazer parte da dramaturgia. O corpo insiste. O fogo resiste. A artista insiste novamente.
Até que a chama surge.
E talvez toda a obra esteja condensada nesse pequeno acontecimento.
Insistir.
Mesmo quando o mundo não acende.
Mesmo quando o fósforo falha.
Mesmo quando a vida parece não pegar fogo.
Quando finalmente desenha um círculo flamejante no chão e passa a performar dentro dele, Ana deixa de ser personagem. Torna-se rito.
O fogo não aparece como efeito especial.
Aparece como tecnologia ancestral.
Purificação.
Proteção.
Transformação.
Passagem.
É impossível não lembrar que a personagem anunciada no título não carrega o fogo.
Ela é carregada por ele.
Então vem o mar.
O público é convidado a produzi-lo coletivamente. Sob a condução de Claudiane, mãos começam a bater sobre peitos. Um corpo. Depois outro. Depois dezenas. O que se escuta não é apenas ritmo, mas pulsação. Aos poucos, aquele conjunto de batidas transforma-se em mar. Não um mar representado, mas um mar produzido pelos próprios corpos presentes.
A operação é delicada e radical ao mesmo tempo.
Antes de fazer surgir O Navio Negreiro, Claudiane desloca o Atlântico para dentro da carne. O oceano da diáspora deixa de ser paisagem e torna-se batimento cardíaco. A travessia não aparece como imagem distante da história brasileira, mas como memória inscrita em corpos vivos.
E talvez esteja aí uma das questões mais instigantes do trabalho.
O que significa revisitar textos tão conhecidos como Ana de Amsterdam, O Navio Negreiro e Cântico Negro em pleno século XXI?
Haveria o risco de transformá-los em monumentos, em peças de museu, em referências estabilizadas pela repetição. Claudiane escolhe o caminho oposto. Em vez de preservar esses textos sob redomas, devolve-os à experiência viva do encontro. Eles deixam de funcionar como repertório literário e passam a operar como matéria de corpo.
É desse oceano imaginário, construído coletivamente, que emerge o poema de Castro Alves.
A presença do Afoxé amplia ainda mais o campo de forças da cena. Quando ecoa Nkosi Sikelel’ iAfrika, antigo hino de resistência ao apartheid sul-africano, África, Brasil, diáspora, escravidão, resistência e festa passam a coexistir sem hierarquia.
A ancestralidade não surge como nostalgia.
Nem como celebração identitária simplificada.
Surge como movimento.
Não por acaso, Claudiane não interpreta a dor como monumento.
Ela a transforma em circulação.
Ela a transforma em canto.
Ela a transforma em dança.
O mesmo acontece com Cântico Negro, de José Régio.
Conhecendo a trajetória de Claudiane, o célebre “Não, não vou por aí” adquire um peso particular. O poema parece ecoar não apenas uma recusa individual, mas a persistência de uma artista que escolheu construir sua trajetória no interior, longe das narrativas que costumam concentrar legitimidade nos grandes centros.
Há algo profundamente político nessa permanência.
Permanecer criando.
Permanecer pesquisando.
Permanecer formando pessoas.
Permanecer ocupando territórios.
Permanecer pulsando.
Mas o que mais chama atenção talvez seja a forma como a obra se recusa a encerrar no trauma.
Depois de atravessar escravidão, exílio, feminilidade, desejo, memória e luta, Claudiane não oferece uma conclusão.
Oferece uma roda.
Quando os tambores do Afoxé convocam os enredos de Muzenza, Oluwa e Candaces, o espetáculo deixa definitivamente de ser espetáculo.
Transforma-se em carnaval.
Em encontro.
Em comunidade.
O público canta.
O público dança.
O público atravessa a fronteira que normalmente separa artista e plateia.
E talvez seja nesse momento que Ana, o fogo anda comigo revele sua camada mais profunda.
A obra não parece interessada apenas em narrar uma trajetória individual. O que ela coloca em cena é uma tecnologia de permanência. Uma forma de transmissão que não acontece através de arquivos ou documentos, mas através de corpos que continuam reunindo pessoas, compartilhando memórias e produzindo pertencimento.
A gargalhada estalante de Claudiane, aquele inconfundível “ca-ca-ca-ca-ca-ca-ca” que atravessa décadas de atuação no Vale do Aço, parece condensar algo dessa força. Não a gargalhada de quem desconhece a dor, mas a de quem se recusa a permitir que a dor seja a última palavra.
Ao final da noite, talvez se perceba que o fogo nunca foi o verdadeiro centro da obra.
O fogo aparece.
O fogo falha.
O fogo retorna.
Mas o que permanece é outra coisa.
O pulso.
O mesmo pulso anunciado na chegada do público.
O mesmo pulso que transforma peitos em oceano.
O mesmo pulso que atravessa a memória do Farroupilha, do Afoxé, da Casa 28, do Perna de Palco, do Solus e da Cultura Viva.
Não saímos daquela noite carregando apenas uma imagem de fogo.
Saímos escutando um coração.
Fotos: Ariel Bertola





