Por Wenderson Godoi
O encontro entre Joubert Arrais e o Hibridus, retomado em abril de 2026 no Espaço Hibridus Ponto de Cultura, viabilizado pela Política Nacional Aldir Blanc, não se organiza apenas como uma residência no sentido mais recorrente do termo. Ele desloca a própria ideia de residência, pois não há aqui a lógica de transmissão de técnica, nem a de acompanhamento de um processo para sua qualificação externa. O que se instala é outra coisa: a convivência como tecnologia de criação.
Isso exige cuidado, porque a convivência costuma ser tratada como valor, quase sempre positivo, e não como procedimento. Ao longo dos quase vinte anos que atravessam esse encontro, desde o Rumos Itaú Cultural Dança 2007, passando pela convivência em 2013 no Centro de Estudos em Dança (CED) e pela vinda de Joubert a Ipatinga naquele mesmo ano, quando apresenta Eu Danço Sambarroxé e lança seu livro, Dança com a crítica, o que se acumula não é apenas parceria, mas um modo de operar junto. Em 2015, quando Luciano Botelho é convidado por Joubert para operar a técnica de seu solo Eu Danço Sambarroxé em Itacaré, e em 202, na residência em Fortaleza que resulta em FLESHIBEQUI (uma websérie de 04 capítulos), essa convivência já não é circunstancial: ela passa a produzir obra.
Em 2026, esse acúmulo se explicita como método. Durante a residência, não há um centro organizador único. Assistir às videodanças do Hibridus: “Aqui”, “…fora de todas as casas, de todas as lógicas”, ou revisitar registros do trabalho para as infâncias “Coisa é tudo”, ou os trabalhos recentes do Grupo: “ADEÓ” e “Ornitorrinco” não opera como revisão histórica, mas como ativação de um campo de decisões. O que está em jogo não é o passado das obras, mas o modo como elas continuam agindo sobre quem as vê, inclusive seus próprios criadores. A convivência, nesse caso, reorganiza a relação com a memória: não como arquivo estabilizado, mas como matéria que insiste.
O mesmo ocorre ao assistir novamente os episódios de FLESHIBEQUI. O trabalho, produzido em 2021 no finalzinho da pandemia, é recolocado em um ambiente de presença compartilhada. Isso altera sua leitura. A obra já não responde apenas ao contexto que a gerou, mas ao conjunto de experiências que se acumularam depois dela.
Nesse deslocamento, algumas questões retornam com mais nitidez. Luciano reconhece ali elementos que atravessam também o processo de criação de Ornitorrinco, especialmente no que diz respeito à emergência de sua infância, a criança viada, já anunciada de alguma forma em FLESHIBEQUI, mas que agora se explicita como camada mais consciente de investigação.
Essa emergência, no entanto, não se dá de forma homogênea. Ela se inscreve em trajetórias distintas: enquanto, na infância de Luciano, a dança e a expressão de sua orientação foram interditadas, marcadas por um “não pode”, Joubert reconhece ter crescido em um contexto em que dançar era possível, autorizado. Já eu não esperei autorização, dancei antes mesmo de perguntar.
É nesse contraste que o trabalho ganha espessura. A infância, aqui, não aparece como memória a ser narrada, mas como condição que molda diferentes modos de presença e criação.
A convivência, aqui, não é cenário, é aquilo que atualiza a obra.
Quando se chega às proposições corporais, esse funcionamento se torna mais evidente. Não há condução centralizada. Joubert, Luciano e eu operam a partir de seus próprios interesses, sem que um se sobreponha ao outro. O que se produz não é uma síntese, mas um campo de fricção.
Ainda assim, essa horizontalidade não se dá de forma automática. Em alguns momentos, a própria intensidade da fala, especialmente na forma como Joubert articula e desdobra seu pensamento, tende a expandir o tempo da escuta em uma única direção, exigindo cortes, pausas e revezamentos para que outras vozes também se inscrevam.
Longe de configurar um problema, é justamente nesse ajuste fino que a convivência se afirma como dispositivo: não como harmonia, mas como negociação contínua de presença. A convivência funciona, então, porque impede a estabilização. Cada proposição desloca a anterior, criando um ambiente em que a criação não se resolve, mas se mantém em estado de investigação.
Esse mesmo princípio atravessa os deslocamentos pela cidade. As visitas ao Centro de Memória Usiminas e ao Centro Cultural Usiminas, o espetáculo LUREX, o almoço no Empório da Serra, a ida ao Parque Ipanema para assistir Bagagem, de Charles Davidson, e Peças Sonoras, de Thembi Rosa com o O Grivo no Espaço Hibridus Ponto de Cultura, não aparecem como atividades paralelas. Elas expandem o campo de criação. A convivência não se restringe ao espaço de trabalho, ela incorpora o território, os ritmos, as pausas, os encontros inesperados. Criar, nesse contexto, não é separar-se da vida cotidiana, mas intensificá-la como campo de percepção.
Talvez o ponto mais incisivo dessa residência esteja no encontro dedicado à escrita. Ao compartilhar suas práticas, o Hibridus explicita um deslocamento que não é apenas metodológico, mas estrutural: a escrita não vem depois da obra, nem funciona como explicação. Ela opera como parte do próprio processo de criação.
Esse deslocamento, no entanto, não se restringe à escrita crítica. Ele se amplia para outras formas de escrita que o grupo vem desenvolvendo nos últimos anos, especialmente a escrita de projetos. Desde 2020, ainda sob as condições de isolamento impostas pela pandemia, o Hibridus passou a operar também nesse campo, elaborando e viabilizando dezenas de projetos culturais para agentes da região, em processos que se repetem e se expandem com a Lei Paulo Gustavo (LPG) e, mais recentemente, com a Política Nacional Aldir Blanc (PNAB). Nesse caso, escrever não é apenas elaborar discurso, mas construir condições de existência para a própria produção cultural.
Esse entendimento retorna no modo como a escrita crítica é praticada. Um dos textos compartilhados, a crítica ao espetáculo O Mundo é Redondo, do Coletivo Aberto de Teatro com direção de Léo Coessens, evidencia esse procedimento. Nele, a escrita não descreve a cena, mas constrói uma hipótese de leitura, a escrita, nesse caso, não protege o trabalho, ela o coloca em relação, bem como os textos que vêm sido produzidos por mim desde 2024.
É nesse ponto que a presença de Joubert opera com mais precisão. Não como validação dessa prática, mas como fricção. O que se coloca em jogo não é apenas como escrever sobre a dança, mas o que significa escrever a partir dela, assumindo que a escrita também precisa responder às mesmas exigências de risco, implicação e posicionamento que o corpo assume em cena.
A convivência, nesse momento, deixa de ser troca e passa a ser dispositivo. Porque é ela que sustenta um espaço em que diferentes formas de escrita, crítica, artística, institucional, se atravessam, se tensionam e se re-configuram. Produzindo pensamento não como consenso, mas como campo de disputa.
A participação de Joubert nas ações formativas do Comitê de Cultura de Minas Gerais, sobre o Fundo Estadual de Cultura (FEC), com Janaina Silva, e sobre o fortalecimento do audiovisual, com Aryane Ribeiro, já desloca a residência para além da dimensão artística. Mas esse deslocamento se amplia quando se considera também a ação presencial realizada em Belo Oriente, município a cerca de 45 km de Ipatinga, mediada por Leila Cunha, dedicada à Política Nacional Aldir Blanc (PNAB).
A presença de Joubert nesse contexto não é apenas participação: ela re-inscreve uma linha de continuidade. Quando o encontro inicial se deu, em 2007, em São Paulo, Leila também integrava o Hibridus e também estava lá. O que acontece em Belo Oriente, portanto, não é um evento isolado, mas um reencontro que reativa trajetórias compartilhadas, agora deslocadas para outro momento e outro campo de atuação.
Essa sobreposição de tempos: 2007, 2013, 2021, 2026, evidencia que a convivência não se dá apenas na simultaneidade, mas também na duração. Ela acumula camadas, reconfigura relações e produz efeitos que ultrapassam o espaço imediato do encontro.
Nesse contexto, a formação deixa de ser compreendida como transmissão de conteúdo. Ela passa a operar como inserção em redes vivas de pensamento e ação, nas quais arte, política cultural e território se atravessam. A convivência, aqui, não apenas sustenta o encontro, ela estrutura o modo como o conhecimento circula, se transforma e se projeta.
Os encontros informais, a conversa com Léo Coessens, Bárbara Pavione e Tom, o jantar com Maria Cloenes, Rosângela Sulidade e Juan, em torno de um prato de frango com quiabo, tão presente na cultura mineira, não funcionam como momentos de descanso. Eles são parte constitutiva da residência.
Ao final, o que se evidencia é que a convivência, quando assumida como tecnologia de criação, não produz fechamento. Ela produz continuidade. Os projetos que emergem: escrita, trabalhos para as infâncias, podcast, videodança…, não são desdobramentos planejados, mas efeitos de um campo que permanece ativo mesmo após o retorno de Joubert para Fortaleza.
Essa continuidade já se anuncia em novos encontros por vir, a possibilidade de um FLESHIBEQUI 2, ou de outros formatos ainda em elaboração, que não se fixam em um único território, mas se desdobram entre Ipatinga, Fortaleza, Juazeiro do Norte ou qualquer outro lugar onde essa rede possa se ativar.
Mais do que dar sequência a projetos específicos, trata-se da permanência de um modo de operar: a convivência como aquilo que continua produzindo encontros, deslocamentos e criação.
Nesse contexto, a Política Nacional Aldir Blanc (PNAB) não aparece apenas como financiamento. Ela opera como condição de possibilidade para a existência desse tipo de prática, uma prática que não se organiza em torno de produtos imediatos, mas de processos que exigem tempo, presença e implicação. Ao viabilizar a residência, a política pública não sustenta apenas um encontro: ela sustenta um modo de criação que depende da convivência para existir.
O desafio, então, não é afirmar que a convivência é importante.
É reconhecer que, nesse caso, ela é o próprio trabalho.


