Quando o mundo escuta de volta

Por Wenderson Godoi

Quando Thembi Rosa retorna a Ipatinga em 2026, ao lado de O Grivo, o que se coloca não é apenas mais uma apresentação, mas a reativação de uma trajetória que atravessa o tempo e o território. Sua primeira vinda, em 2004, quando apresentou Ajuntamento no ENARTCi – Encontro de Dança Contemporânea de Ipatinga, seguida pelo retorno em 2008 com Confluir também no ENARTCi, agora ganha outra camada: não se trata mais de mostrar um trabalho, mas de instaurar uma condição de escuta. E essa escuta, no Espaço Hibridus, não encontra o ambiente ideal, e é justamente aí que o trabalho se desloca e se expande.

Além das apresentações de Peças Sonoras, o Espaço Hibridus também hospedou uma oficina de dança contemporânea conduzida por Thembi Rosa, compartilhando aspectos de seu processo de criação com artistas e público da região. A ação integrou a programação formativa e foi viabilizada com recursos da PNAB – Política Nacional Aldir Blanc, reafirmando o papel do espaço não apenas como lugar de fruição, mas de troca, formação e circulação de saberes.

O espaço não é um teatro. Não há vedação acústica. No primeiro dia, a peça é atravessada por gritos de uma aula de taekwondo na academia ao lado, pelo apito do trem que corta o tempo da apresentação, por motos, caminhões, buzinas e até pelo caminhão de lixo que passa recolhendo restos da cidade. O que poderia ser entendido como ruído ou falha revela outra coisa: a impossibilidade de controle como parte constitutiva da obra. O Grivo constrói um campo sonoro de extrema precisão, com engenhocas delicadas e gestos mínimos, mas esse campo não se protege, ele se abre. E quando se abre, a cidade entra. Não como inimiga, mas como co-autora involuntária. O apito do trem não interrompe, ele desloca; o grito ao lado não quebra, ele tensiona; o mundo não invade, ele compõe. E Thembi não ignora isso. Seu corpo absorve, re-organiza, negocia com essas presenças. A coreografia deixa de ser uma estrutura fechada e passa a operar como um campo permeável, onde o inesperado não é erro, mas matéria.

No segundo dia, o sábado parece oferecer um pouco mais de silêncio, como se finalmente o trabalho pudesse acontecer em condições mais “adequadas”. Mas então surge nosso querido Tom, uma criança prestes a completar dois anos, filho de um casal de amigos queridos (Léo e Barbara do Coletivo Aberto de Teatro) que insiste em sair do colo dos pais e caminhar em direção às engenhocas do Grivo e ao corpo de Thembi. Seus passos no chão de madeira produzem som, seus deslocamentos geram tensão, obrigam os pais a segui-lo, re-organizam a atenção da sala. Tom não assiste. Ele responde. E, ao responder, explicita algo que o trabalho já vinha propondo: a escuta não é apenas auditiva, ela é corporal. Aqui, algo se desloca de forma mais contundente do que no primeiro dia. Porque Tom não disputa com o trabalho, ele entra sem mediação. Ele não sabe que deveria assistir. Ele age. E, ao agir, expõe uma questão que o trabalho parece contornar: a escuta não é apenas um exercício de refinamento, mas também de disponibilidade ao imprevisível que não pede licença. Tom não “dança com” a obra. Ele tensiona seu limite. E, curiosamente, é nesse momento que a peça encontra uma espécie de vitalidade que não depende de condições ideais. Se no primeiro dia a cidade entrou pelas janelas, no segundo a infância entrou pelo corpo. E ambas operam no mesmo registro: desestabilizam a ideia de obra como algo fechado, protegido, intocável.

Há ainda um dado que atravessa tudo isso: a parceria entre Thembi e Canário, integrante do Grivo, que também é seu companheiro de vida. Mas o que se vê em cena não é uma fusão confortável. Som e corpo não se ilustram, não se acompanham, não se confirmam. Eles co-existem em tensão, às vezes se escutam, às vezes se ignoram, e é nesse intervalo que o trabalho respira. Não há sincronia evidente, há convivência de presenças. O som não serve à dança, a dança não responde ao som. Ambos constroem um campo onde a escuta precisa ser ativa, instável, disponível.

Seria fácil dizer que o espaço “atrapalhou”, que o ideal seria um teatro com isolamento acústico. Mas isso seria empobrecer o acontecimento. Porque o que Peças Sonoras revelou nesses dois dias foi justamente que o silêncio absoluto é uma ficção e que a dança que depende dele talvez esteja tentando se proteger demais do mundo. No Hibridus, o trabalho não foi protegido, foi exposto. E, ao ser exposto, mostrou sua potência: incorporar o imprevisível, conviver com o que escapa, transformar interferência em composição. Thembi não retorna a Ipatinga para repetir um percurso, mas para deslocá-lo. Entre 2004, 2008 e 2026, o que se constrói não é uma linha contínua, mas uma escuta cada vez mais radical, cada vez menos interessada em controle. Peças Sonoras não entrega um espetáculo no sentido convencional. Entrega uma pergunta que permanece reverberando: o que estamos realmente ouvindo quando achamos que estamos em silêncio?

Fotos: Wenderson Godoi