Há viagens que começam muito antes da partida.
A ida para a 6ª TEIA Nacional dos Pontos de Cultura talvez tenha começado em dezembro de 2025, quando sentei em uma cadeira da Biblioteca Pública Luiz de Bessa, em Belo Horizonte, durante o X Fórum Estadual dos Pontos e Pontões de Cultura de Minas Gerais, sem imaginar que ainda haveria espaço para mim naquela travessia.
Fiquei como terceiro suplente.
E talvez exista algo profundamente simbólico nisso.
Porque a Cultura Viva nunca foi exatamente sobre ocupar o centro. Ela nasce justamente dos corpos e territórios acostumados a viver na borda do país. Dos que aprendem a esperar. Dos que seguem trabalhando mesmo sem garantia de chegada. Dos que insistem.
Então, quando três pessoas não puderam ir e a convocação chegou, não senti que estava apenas recebendo uma vaga. Senti como se uma fresta tivesse se aberto dentro da própria história recente da cultura brasileira.
Na segunda-feira, 18 de maio, às cinco da manhã, ainda escuro em Ipatinga, saímos de carro: Carlos Passos, da Filó Incubadora Ponto de Cultura e eu. Depois, em Governador Valadares, Alba Dutra entrou no carro trazendo consigo o Vale do Jequitinhonha inteiro, porque Albinha não chega sozinha nos lugares. Ela chega acompanhada de histórias, afetos e sobrevivências.
Seguimos por cerca de 400 quilômetros até Aracruz no Espírito Santo.
Curioso pensar nisso agora: três pessoas vindas de territórios distintos de Minas, Vale do Aço e Vale do Jequitinhonha, cruzando estradas rumo ao litoral capixaba para falar de cultura de base comunitária e justiça climática. Como se o país, por alguns dias, resolvesse se reorganizar não pela lógica das capitais, mas pela lógica dos encontros.
A 6ª TEIA foi a primeira realizada fora de uma capital. E isso não é detalhe. Isso é discurso.
Aracruz não foi cenário. Foi argumento.
Uma cidade atravessada pela presença Tupinikim e Guarani, marcada também pelas feridas ambientais deixadas pelo desastre do Rio Doce, recebendo mais de cinco mil pessoas, duzentas atividades gratuitas, milhares de vozes tentando reconstruir a ideia de futuro.
Havia algo de contraditório e bonito naquele SESC Praia Formosa.
Uma infraestrutura gigantesca, impecável, organizada, convivendo com aquilo que talvez nenhuma estrutura consiga administrar completamente: o excesso de vida.
Porque a TEIA não funciona como congresso.
Ela move mais perto de uma corrente elétrica.
Os corpos passam o tempo inteiro se atravessando.
Uma roda de coco desemboca numa plenária. Uma indígena atravessa um corredor enquanto alguém debate Política Nacional Aldir Blanc. Um cortejo interrompe o caminho para o almoço. Uma drag queen conversa sobre território com um mestre de tradição popular. Um jovem periférico do hip-hop divide mesa com pesquisadores. Uma benzedeira segura a mão de uma gestora pública.
Tudo acontece ao mesmo tempo.
E talvez seja exatamente isso que assuste tanto os projetos autoritários: a Cultura Viva produz convivência.
Ela fabrica uma tecnologia rara no Brasil contemporâneo, a capacidade de existir coletivamente sem apagar as diferenças.
Participei do GT de Dança.
E ali compreendi outra coisa importante: a dança brasileira continua tentando sobreviver apesar do Brasil.
As discussões falavam sobre plataformas nacionais, circulação, redes, intercâmbio, sustentabilidade, memória e formação.
Mas, no fundo, falávamos sobre permanência.
Sobre como continuar existindo.
Li no meu crachá “Wenderson Godoi – Ipatinga/MG – Associação Coreográfica Hibridus Cia. de Dança”, pensei imediatamente no Veneza, no Horto, nas salas alugadas, nos corpos LGBT+, negros e periféricos que sustentaram o Hibridus nesses mais de vinte anos.
Nenhum corpo chega sozinho a uma TEIA nacional.
Existe sempre uma multidão invisível empurrando pelas costas.
Também participei do encontro dos Comitês de Cultura e dos Agentes Territoriais de Cultura. Ali estavam Desirée Tozi e Mirela Leite de Araújo debatendo governança, articulação, continuidade e território. E talvez o mais bonito fosse perceber que, pela primeira vez em muito tempo, a política cultural brasileira parecia voltar a olhar para baixo, para os territórios, e não apenas para os grandes centros.
A Cultura Viva tem algo que desmonta a lógica tradicional do Estado.
Ela não começa no prédio público.
Ela começa na comunidade.
Depois o Estado chega.
Ou deveria chegar.
Nas aldeias Tupinikim de Irajá e Caieiras Velhas, compreendi outra camada da TEIA.
A palavra território deixou de ser conceito.
Virou chão.
Virou árvore.
Virou memória.
Virou corpo indígena caminhando diante da gente enquanto o país ainda insiste em tratar a natureza como recurso e não como parentesco.
A 6ª TEIA afirma que “não existirá justiça climática sem justiça cultural”, e talvez nenhuma outra frase tenha sintetizado com tanta precisão o que atravessou aqueles dias em Aracruz. Porque falar em transição ecológica no Brasil sem enfrentar o racismo ambiental, as desigualdades territoriais, a concentração histórica de recursos, o apagamento dos saberes ancestrais e a destruição contínua das culturas comunitárias é apenas produzir um discurso verde vazio, incapaz de tocar as estruturas profundas que sustentam a própria crise. A TEIA parecia compreender que a emergência climática não é apenas ambiental: ela é também política, racial, econômica e cultural.
A TEIA parecia entender isso.
Ou pelo menos tentava.
Claro que havia contradições. Muitas.
Filas, disputas, tensões, desorganizações, ausências, problemas de representação, conflitos entre GTs, divergências políticas. E também violências. Em diferentes espaços da 6ª TEIA, mulheres precisaram interromper debates para denunciar práticas autoritárias de homens que gritavam, interrompiam falas ou mandavam que elas se calassem. Alguns GTs chegaram a elaborar cartas de repúdio diante dessas situações. E talvez isso também precise ser dito quando falamos de democracia cultural: ela não se constrói apenas no discurso das plenárias ou nos documentos oficiais, mas na forma como os corpos se escutam, ou não se escutam, dentro dos próprios espaços de participação. A TEIA, como o próprio país, carregava suas contradições. E talvez sua potência também estivesse em permitir que esses conflitos emergissem à superfície, revelando que ainda temos muito a aprender sobre convivência, escuta e partilha real de poder.
Mas talvez justamente aí reside sua potência.
A TEIA não é um espaço higienizado.
Ela é um retrato imperfeito do Brasil tentando conversar consigo mesmo depois de anos de brutalização.
E havia algo profundamente emocionante nisso.
Voltei de Aracruz pensando que talvez a Cultura Viva tenha conseguido produzir uma das coisas mais difíceis do nosso tempo: esperança sem ingenuidade.
Não uma esperança decorativa.
Mas uma esperança construída no cansaço.
Na estrada.
Na reunião.
Na divergência.
No corpo que insiste.
No ponto de cultura que segue aberto mesmo sem recurso.
Na artista periférica que continua criando.
Na rádio comunitária.
No mestre popular.
Na juventude LGBT+ ocupando espaço.
Na aldeia indígena que ainda canta.
Doze anos depois da última TEIA nacional, o que aconteceu em Aracruz não foi apenas um reencontro.
Foi uma espécie de aprendizado coletivo da presença.
E talvez seja isso que eu tenha trazido comigo de volta para Ipatinga.
A sensação de que, apesar de tudo, ainda estamos aqui.
Tecendo.
Wenderson Godoi
Hibridus Pontão de Cultura







