Por Wenderson Godoi
Há vinte anos, conheci Fernanda Bevilaqua em Uberlândia. Era 2006, durante o FID – Fórum Internacional de Dança em Belo Horizonte, quando Hibridus e Uai Q Dança participavam juntos como bolsistas. Naquele mesmo ano, nos reencontramos no Circuladança Minas, projeto de Vanilton Lakka. Não sabíamos, evidentemente, que estávamos começando a construir uma história que, duas décadas depois, encontraria uma de suas imagens mais contundentes em um pequeno tapete coberto de terra, no meio do Espaço Hibridus Pontão de Cultura.
Na quarta-feira, 28 de outubro de 2026, Fernanda voltou a Ipatinga com Umbigo. E talvez seja necessário começar por essa palavra: voltou.
Porque voltar não é repetir uma chegada.
O Uai Q Dança já havia estado em Ipatinga na década de 1990, quando se apresentou no auditório da Academia Olguin, que também hospedou suas bailarinas. Em 2008, na sexta edição do ENARTCi – Encontro de Dança Contemporânea de Ipatinga, o grupo participou de uma imersão e apresentou Venda, intervenção urbana realizada na Feira do Canaã. Naquele ano, esteve também na sede do Farroupilha. Em 2012, Fernanda retornou para a décima edição do ENARTCi – Encontro de Dança Contemporânea de Ipatinga, intitulada Cuidado de Si, participando de uma roda de conversa.
O movimento aconteceu também na direção contrária. O Hibridus esteve algumas vezes em Uberlândia, no Palco de Arte Uai Q Dança, com Abrindo Minhas Gavetas, Solos Hibridus, Travessia e Entre, além de oficinas e conversas.
Conto isso não por nostalgia ou necessidade de registrar uma cronologia. Conto porque Umbigo nos obriga a pensar que um encontro nunca começa exatamente quando os corpos se encontram. Há uma rede anterior de relações que torna aquele acontecimento possível.
E a dança não acontece fora dessas relações.
Inspirado no livro homônimo de Clara Bevilaqua, filha de Fernanda, o espetáculo tem direção artística, dramaturgia e sonoplastia de Cássio Machado, com cenografia, figurino e iluminação de Ronan Vaz, artista da Trupe de Truões. A obra parte da cicatriz umbilical para investigar nascimento, separação, ancestralidade e pertencimento.
Mas há algo particularmente interessante nessa operação: uma mãe dança a escrita de sua filha. Aquela que um dia esteve ligada biologicamente ao corpo da filha agora se relaciona com ela por meio da literatura, da dança e da criação artística. O cordão já foi cortado há muito tempo, mas outras formas de ligação continuam sendo produzidas.
O umbigo é uma cicatriz paradoxal. Marca o lugar onde estivemos ligados a outro corpo e, simultaneamente, o lugar onde essa ligação foi interrompida. É a presença permanente de uma ausência.
Na cultura popular do interior, existe o costume de enterrar o umbigo da criança na terra. Um gesto que não é apenas superstição, mas uma maneira simbólica de produzir pertencimento. Enterra-se o umbigo para que a pessoa tenha raízes, para que não esqueça de onde veio, para que alguma coisa sua permaneça naquele chão.
O umbigo é também uma ferida que exige tempo. Depois do nascimento, o cordão é cortado, mas o pequeno coto que permanece precisa secar e cair sozinho. Não se deve arrancá-lo. Há um tempo próprio para que a separação se complete.
Talvez essa seja uma das imagens mais perturbadoras que o umbigo oferece à vida contemporânea, tão organizada pela urgência: nem tudo que precisa se separar deve ser arrancado. Nem toda ferida obedece ao tempo que desejamos impor a ela.
Em Umbigo, essas questões não permanecem apenas no campo da representação. Elas acontecem materialmente.
Fernanda dança sobre a terra.
A terra não está ali apenas para compor uma paisagem. Sua presença convoca o chão, a origem, a decomposição, a fertilidade, a morte e a possibilidade de nascer novamente. É matéria que antecede e ultrapassa nossos corpos. A terra não representa simplesmente a memória: ela participa da construção dessa memória em cena.
Em determinado momento, Fernanda estica fios vermelhos que saem do tapete coberto de terra. Os fios avançam em direção à plateia. Ela se aproxima das pessoas, entrega-lhes esses prolongamentos materiais e cochicha algo em seus ouvidos.
No meu, disse o nome da minha mãe.
É difícil descrever o que acontece quando uma palavra tão familiar é deslocada para uma situação tão inesperada. O nome da minha mãe, pronunciado por Fernanda, naquele instante, deixou de pertencer exclusivamente à minha memória privada. Passou a existir também naquela relação entre artista, obra e espectador.
Camila Gracian, atriz que estava na plateia, caiu em prantos ao receber o fio e o cochicho. Outras pessoas também se emocionaram.
Mas seria insuficiente dizer que a cena foi emocionante.
O que interessa é compreender como essa emoção foi produzida.
Fernanda não solicitou que a plateia recordasse suas mães por meio de uma explicação. Não precisou construir uma narrativa sentimental sobre a maternidade. Ela produziu uma situação concreta: um fio, um deslocamento, uma aproximação, uma voz, um nome.
A memória foi acionada por uma experiência compartilhada.
O fio vermelho não servia apenas como símbolo do cordão umbilical. Ele alterava a organização espacial da apresentação. Aquilo que estava concentrado no centro da cena se estendia até os corpos de quem assistia. A plateia deixava de ocupar somente o lugar de observação para integrar uma rede de relações.
E essa rede não era abstrata. Tinha matéria, extensão, tensão e contato.
Outro acontecimento produziu um deslocamento igualmente significativo. Em determinado momento, Fernanda retirou da terra uma rosa azul e a ofereceu a Solange Maria, que estava na plateia.
Solange, curiosamente, costuma vestir-se em tons de azul.
A coincidência não precisa ser explicada para produzir sentido. Pelo contrário, sua força está justamente em abrir uma relação que nenhuma dramaturgia conseguiria controlar inteiramente. A rosa, enterrada naquela terra, encontrou um corpo cuja presença acrescentou à cena uma camada inesperada.
A obra propunha uma ação. A vida que estava na plateia produziu outras possibilidades de leitura.
É nesse ponto que Umbigo se torna especialmente interessante: quando a cena não se fecha sobre aquilo que já estava previamente organizado e permite que o encontro produza acontecimentos que não pertencem exclusivamente à artista.
Havia ainda outra presença naquela noite que, para mim, ampliava essa rede: Didi Peres.
Ator fundamental para a trajetória do Hibridus, Didi estava na plateia depois de muito tempo sem nos encontrarmos. Sua presença fazia com que o espetáculo convocasse não apenas as histórias familiares, mas também as histórias artísticas, as amizades, os afastamentos e os reencontros que constituem uma vida.
Porque também existem cordões umbilicais entre artistas, grupos e territórios.
Há vínculos que se transformam, relações que se distanciam, projetos que terminam, espaços que desaparecem. Mas há encontros que continuam agindo em nós muito depois de terem acontecido.
E não deixa de ser politicamente significativo que essa discussão seja produzida pelo corpo de uma mulher com mais de sessenta anos.
Em um campo artístico que frequentemente associa potência à juventude, Fernanda reivindica a presença de um corpo maduro não como testemunho de um passado glorioso, mas como corpo que continua produzindo pensamento, experiência e dança.
Seu corpo não está em cena para provar que ainda consegue fazer aquilo que fazia antes. Está ali para produzir aquilo que só pode ser produzido a partir do corpo e das relações que existem agora.
A maturidade, portanto, não aparece como limitação a ser superada. Aparece como condição de produção de conhecimento.
Isso também nos obriga a perguntar por que tantos corpos desaparecem da dança à medida que envelhecem. Quem determina o tempo de permanência de um artista? Que estruturas permitem ou impedem que alguém continue criando? E por que a experiência acumulada nem sempre encontra reconhecimento nas políticas de produção, circulação e formação em dança?
Essas questões não são exteriores ao espetáculo. Elas atravessam a própria possibilidade de sua existência.
Há também uma dimensão política no fato de Umbigo circular por cidades do interior de Minas Gerais, encontrando espaços independentes e públicos constituídos por diferentes trajetórias.
A apresentação no Hibridus, viabilizada pela Política Nacional Aldir Blanc, evidencia a importância de políticas públicas capazes de sustentar a circulação artística para além dos grandes centros.
Não se trata apenas de levar um espetáculo a outra cidade. Trata-se de permitir que histórias, pesquisas e modos de produzir dança se encontrem, se contaminem e produzam novas relações.
Ao final, Fernanda se afasta chamando nomes.
Sua voz vai ficando cada vez mais distante. Os nomes continuam sendo pronunciados, mas já não conseguimos ouvi-los com a mesma proximidade. O corpo da artista se retira, enquanto a voz insiste em permanecer por mais algum tempo.
Até o blackout.
Essa escolha dramatúrgica é especialmente precisa. O espetáculo não termina com uma imagem de reconciliação ou com a promessa de que todos os vínculos permanecerão intactos. Termina com o distanciamento.
Os nomes se afastam.
A voz desaparece.
A luz se apaga.
Mas alguma coisa continua acontecendo em quem ficou.
Talvez porque o umbigo seja justamente isso: a marca de uma ligação que já não existe da mesma maneira, mas que continua produzindo consequências.
Saí daquela apresentação pensando que Fernanda havia retornado a Ipatinga trazendo muito mais do que um espetáculo de dança. Trouxe consigo uma história que também era nossa.
Em 2006, estivemos juntos como bolsistas de um programa de dança. Em 2008, ocupamos a Feira do Canaã. Em 2012, discutimos o cuidado de si. Em tantos outros momentos, compartilhamos palcos, oficinas, conversas, deslocamentos e experiências.
Vinte anos depois, Fernanda estendeu um fio vermelho em minha direção e disse o nome da minha mãe.
Naquela noite, a história da dança e a história da minha vida deixaram de parecer coisas separadas.
Talvez nunca tenham sido.
O umbigo não é exatamente o centro geométrico do corpo. Mas é uma referência poderosa para pensar que nenhum corpo existe isoladamente.
Somos feitos de relações. De pessoas que nos antecederam. De lugares que nos constituíram. De encontros que nos transformaram. De separações que ainda estamos aprendendo a elaborar.
E talvez seja essa a força de Umbigo: não nos pedir que retornemos ao lugar de onde viemos, mas nos fazer perceber quantos lugares, pessoas e tempos continuam existindo em nós.
Naquela quarta-feira, a terra estava no meio do Espaço Hibridus Pontão de Cultura.
Mas, quando Fernanda começou a estender os fios, ficou evidente que ela não estava apenas no palco.
A terra também estava em cada pessoa que recebeu aquele fio.
E quando a voz de Fernanda desapareceu na escuridão, não foi a relação que terminou.
Foi apenas o momento em que já não podíamos mais vê-la.
Fotos: Solange Maria



